Sylvia Day
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Nov 18, 2014  •  Paralela  •  9788565530835

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O jato de água fria atingiu minha pele quente, e o ardor afastou os últimos vestígios de um pesadelo do qual já nem me lembrava por inteiro.

Fechei os olhos e entrei de vez debaixo do chuveiro, desejando que o medo e a náusea que tinham sobrado escorressem pelo ralo. Estremeci, então meus pensamentos se voltaram para minha esposa. Meu anjo, que estava dormindo tranquilamente no apartamento ao lado. Eu precisava desesperadamente dela, precisava me perder em seus braços e estava furioso por não poder fazer isso. Por não poder abraçá-la. Por não poder puxar seu corpo gostoso para junto de mim e me perder dentro dela, permitindo que espantasse aquelas lembranças.

“Porra.” Pus as mãos espalmadas sobre os azulejos gelados e deixei o frio me castigar. Eu era um cretino egoísta.

Se eu fosse um homem decente, teria me afastado de Eva Cross no momento em que a vi pela primeira vez.

Em vez disso, eu me casei com ela. Queria que essa notícia aparecesse em todas as mídias possíveis, e não que fosse um segredo compartilhado por um punhado de pessoas. Para piorar, como não tinha a mínima intenção de abrir mão dela, precisava dar um jeito no fato de que não podíamos nem dormir no mesmo quarto.

Ensaboei-me para lavar a camada de suor que cobria meu corpo quando acordei. Alguns minutos depois, voltei para o quarto e vesti uma calça de moletom antes de ir para o escritório. Ainda não eram nem sete da manhã.

Eu tinha saído do apartamento onde Eva morava com Cary, seu melhor amigo, apenas algumas horas antes, para que ela pudesse dormir um pouco antes de ir trabalhar. Passamos a noite toda juntos, sucumbindo ao desejo e à necessidade de proximidade. Mas havia outra coisa também. Uma urgência da parte dela que me deixou aflito.

Alguma coisa estava incomodando Eva.

Meu olhar se dirigiu para a janela e para a vista de Manhattan antes de se concentrar em uma parede vazia. Na parede correspondente no meu escritório na nossa cobertura na Quinta Avenida, estavam penduradas fotos de Eva e de nós dois juntos. Eu conseguia visualizar claramente aquela montagem, já que passei incontáveis horas olhando para ela nos últimos meses. Antes, observar a cidade era minha forma de me fechar em mim mesmo. Agora, eu fazia isso olhando para Eva.

Acomodei-me à mesa e movi o mouse para tirar o computador do descanso de tela. Respirei fundo quando o rosto de Eva apareceu no monitor. Ela estava sem maquiagem, e as sardas no nariz faziam com que parecesse ter ainda menos que seus vinte e quatro anos. Meus olhos percorreram seu rosto — a curva das sobrancelhas, o brilho dos olhos acinzentados, a opulência dos lábios. Quando eu me deixava levar pelos pensamentos, quase conseguia sentir sua boca contra a minha pele. Seus beijos eram como bênçãos, promessas do meu anjo de que minha vida valia a pena.

Soltando um suspiro determinado, peguei o telefone e liguei para Raúl Huerta. Apesar de ser cedo, ele atendeu com rapidez e prontidão.

“A sra. Cross e Cary Taylor vão para San Diego hoje”, anunciei, cerrando o punho. Não precisava dizer mais nada.

“Certo.”

“Preciso de uma foto recente de Anne Lucas, e informações detalhadas sobre onde estava ontem à noite, na minha mesa até a hora do almoço.”

“Serei o mais rápido possível”, ele afirmou.

Desliguei e continuei olhando para o rosto lindo e hipnotizante de Eva. Consegui tirar uma foto de surpresa em um momento feliz e estava determinado a manter minha esposa assim pelo resto da vida. Mas na noite anterior ela pareceu abalada pelo encontro com uma mulher que tinha sido usada por mim no passado. Fazia algum tempo que Anne não cruzava meu caminho, mas, se era a responsável pela aflição de Eva, então certamente me veria de novo. Muito em breve.

Abri os e-mails, dei uma lida e escrevi algumas respostas rápidas. Queria poder tratar logo do assunto que tinha chamado minha atenção de ime- diato.

Senti a presença de Eva antes mesmo de vê-la.

Ergui a cabeça em sua direção e comecei a digitar mais devagar. Uma onda de desejo suprimiu a agitação que eu sempre sentia quando ela não estava por perto.

Recostei-me na cadeira para vê-la melhor. “Acordou cedo, meu anjo.”

Eva estava na porta do escritório com as chaves na mão, os cabelos loiros caídos de forma sensual sobre os ombros, o rosto e os lábios ainda vermelhos de sono, com apenas um short e uma blusinha cobrindo seu corpo cheio de curvas. Ela estava sem sutiã, e seus peitos deliciosos se avolumavam sob o tecido de algodão. Pequenina, feita para deixar qualquer homem de joelhos, ela sempre fazia questão de apontar o quanto era diferente das outras mulheres com quem eu tinha aparecido em público antes.

“Acordei com saudade de você”, ela respondeu com sua voz aveludada que sempre me deixava de pau duro. “Levantou faz tempo?”

“Não muito.” Empurrei o teclado para abrir espaço para ela na mesa.

Eva chegou mais perto, descalça, me seduzindo sem nenhum esforço. Assim que a vi pela primeira vez, senti que ia me deixar louco. Essa promessa estava estampada em seus olhos e na maneira como se movia. Onde quer que fosse, o olhar dos homens se voltava para ela. Cheio de cobiça. Assim como o meu.

Eu a segurei pela cintura quando se aproximou e a coloquei no meu colo. Baixando a cabeça, peguei um dos mamilos com a boca e comecei uma sucção longa e profunda. Ouvi quando Eva soltou um suspiro, senti seu corpo se deliciar com a sensação e abri um sorriso por dentro. Eu podia fazer o que quisesse com ela. Eva tinha me dado esse direito. Foi o maior presente que ganhei na vida.

“Gideon.” Suas mãos começaram a acariciar meus cabelos.

Eu já estava me sentindo infinitamente melhor.

Levantei a cabeça para beijá-la, sentindo o gosto de canela da pasta de dente misturado ao sabor que era só dela. “Sim?”

Ela tocou meu rosto e me olhou com atenção. “Você teve outro pesadelo?”

Expirei com força. Ela me entendia como ninguém. Ainda não estava acostumado com isso, nem sabia se algum dia ia me acostumar.

Passei o polegar sobre o tecido úmido por cima do mamilo. “Prefiro falar sobre os sonhos eróticos que você está inspirando agora mesmo.”

“Foi sobre o quê?”

Contorci a boca diante de sua insistência. “Não lembro.” “Gideon...”

“Deixa pra lá, meu anjo.”

Eva ficou toda tensa. “Só quero te ajudar.”

“Isso você sabe bem como fazer.”

Ela deu uma risadinha. “Tarado.”

Eu a abracei mais forte. Não conseguia encontrar palavras para descre-ver como era tê-la nos braços, então encostei o nariz em seu pescoço, sentindo seu cheiro delicioso.

“Garotão.”

Alguma coisa em seu tom de voz me deixou preocupado. Afastei-me com um movimento lento, observando atentamente seu rosto. “Pode falar.”

“Sobre San Diego...” Ela baixou os olhos e mordeu de leve o lábio.

Fiquei paralisado, sem saber o rumo que a conversa tomaria.

“O Six-Ninths vai estar lá”, ela disse por fim.

Eva não tentou esconder o que eu já sabia, e para mim foi um alívio. Em seguida, porém, um tipo diferente de preocupação me invadiu.

“Está me dizendo que isso é um problema?” Meu tom de voz permaneceu firme, mas eu não estava nem um pouco calmo.

“Não, não é um problema”, ela disse com uma voz suave. Seus dedos remexiam inquietamente meus cabelos.

“Não mente pra mim.”

“Não estou mentindo.” Ela respirou fundo antes de me olhar nos olhos. “Tem alguma coisa errada. Estou confusa.”

“E por que exatamente?”

“Não faz isso”, ela pediu, falando baixinho. “Não quero que você fique todo frio e se afaste.”

“Desculpa, mas ouvir minha mulher dizer que está confusa por causa de outro homem não me deixa de muito bom humor.”

Ela tentou descer do meu colo. Eu deixei, porque assim poderia observá-la e avaliar suas reações com um distanciamento maior. “Não consigo explicar.”

Fiz de tudo para ignorar o vazio no estômago. “Tenta.”

“É que...” Ela olhou para baixo e mordeu o lábio inferior. “Tem uma coisa... mal resolvida entre nós.”

Senti um aperto no peito. “Você sente tesão por ele, Eva?”

Ela ficou toda tensa. “Não é isso.”

“É por causa da voz? Da tatuagem? Do pau dele?”

“Para. Não é fácil falar sobre esse assunto. Não torna as coisas ainda piores.”

“Para mim também é difícil”, esbravejei antes de me levantar.

Eu a medi dos pés à cabeça, sentindo vontade de trepar com ela e castigá-la ao mesmo tempo. Queria amarrá-la, trancafiá-la e mantê-la à distância de qualquer um que pudesse representar alguma ameaça a nós dois. “Ele tratou você como lixo, Eva. O clipe de ‘Golden’ fez você esquecer, é? Tem alguma coisa que queira que eu não seja capaz de dar?”

“Não seja babaca.” Ela cruzou os braços em uma postura defensiva que me irritou ainda mais.

Eu precisava de Eva aberta e calorosa para mim. Precisava dela por inteiro. E em alguns momentos ficava irritado por me sentir dessa forma. Ela era a única coisa que eu não podia nem cogitar perder. E estava dizendo a única coisa que eu não suportava ouvir.

“Por favor, não fica bravo por causa disso”, ela murmurou.

“Estou sendo incrivelmente civilizado, levando em conta meus pensamentos violentos no momento.”

“Gideon.” A culpa se tornou visível em seus olhos, que se encheram de lágrimas.

Desviei o olhar. “Não faz isso!”

Mas ela já tinha entendido tudo, como sempre.

“Não queria deixar você chateado.” O anel de diamantes em seu dedo—a prova de que era minha—refletiu a luz em múltiplos tons sobre a parede. “Não gosto de ver você magoado e irritado por minha causa. Me magoa também. Não quero nada com ele. Juro que não.”

Inquieto, fui até a janela e tentei encontrar a calma de que precisava para lidar com o assunto Brett Kline. Eu tinha feito tudo o que podia. Casei, prometi tudo a ela. Demonstrei meu comprometimento de todas as maneiras. Mas não era suficiente.

Outros prédios, mais altos, obstruíam a vista da cidade. Da cobertura na Quinta Avenida, era possível observar tudo até perder de vista. Mas, do meu apartamento no Upper West Side vizinho ao de Eva, o panorama era mais limitado. Eu não conseguia ver as ruas cheias de táxis amarelos ou o sol refletindo na janela dos arranha-céus ao longe.

Eu poderia dar Nova York para Eva. E o mundo também. Era impossível amá-la ainda mais — a paixão me consumia por inteiro. E, ainda assim, um babaca qualquer do passado ia me jogar para escanteio.

Eu me lembrei dela nos braços de Kline, dos beijos desesperados que Eva só deveria oferecer para mim. A possibilidade de que sentisse tesão por ele me fazia querer sair quebrando tudo.

Minhas juntas estalaram quando fechei a mão. “Você já está precisando de um tempo, é isso? Quer ficar um pouco com Kline para acabar com a ‘confusão’? De repente posso fazer o mesmo com Corinne.”

Ela respirou fundo, trêmula, ao ouvir o nome da minha ex-noiva. “Você está falando sério?” Ficamos os dois em um silêncio terrível. E então ela concluiu: “Parabéns, seu idiota. Conseguiu me deixar ainda pior do que eu já estava”.

Eu me virei a tempo de vê-la saindo do quarto, tensa. A chave que usou para entrar estava em cima da mesa, e a visão dela abandonada ali me fez entrar em pânico. “Para.”

Eu a alcancei, mas Eva resistiu ao meu toque. Essa dinâmica entre nós sempre se repetia — ela fugia, e eu corria atrás.

“Me larga!”

Fechei os olhos e encostei meu rosto no dela. “Não vou permitir que ele tire você de mim.”

“Estou tão irritada que quero enfiar a mão na sua cara.” Eu queria que ela fizesse isso. Queria sentir dor. “Enfia.”

Ela cravou as unhas nos meus braços. “Me solta, Gideon.”

Eu me virei para prensá-la contra a parede do corredor. “O que posso fazer se você vem me dizer que está confusa por causa de Brett Kline? Estou me sentindo pendurado na beira de um precipício, com os dedos escorregando.”

“E sua ideia é me arrastar junto lá para baixo? Por que não acredita que meu lugar é ao seu lado?”

Olhei bem para ela, tentando encontrar o que dizer para acertar as coisas entre nós. Seu lábio inferior começou a tremer, e eu... desmoronei.

“Me diz como lidar com isso”, pedi com a voz rouca, apertando de leve seus pulsos. “Me diz o que fazer.”

“Como lidar comigo, é isso que você quer dizer?” Ela jogou os ombros para trás. “Porque o problema aqui sou eu. Conheci Brett em uma época da vida em que me detestava, mas queria que as pessoas me amassem. E agora ele está agindo como se me quisesse de volta, e minha cabeça entrou em parafuso.”

“Minha nossa, Eva.” Eu a apertei com mais força, comprimindo seu corpo com o meu. “Como quer que eu reaja a uma ameaça dessas?”

“Você deveria confiar em mim. Só contei para tirar isso da cabeça e esclarecer tudo, para você não se sentir ameaçado. Sei que ainda tenho umas questões para resolver comigo mesma. Vou falar com o dr. Travis no fim de semana e...”

“Terapeutas não fazem milagre!”

“Não grita comigo.”

Tive que me segurar para não socar a parede. A fé cega da minha mulher nas propriedades curativas da psicoterapia era enlouquecedora. “Não podemos ir correndo para o consultório toda vez que aparece um problema. Esse casamento diz respeito a nós, e não à comunidade psiquiátrica!”

Eva ergueu o queixo, assumindo a postura determinada que sempre me deixava maluco. Ela não cedia nada até meu pau estar dentro dela. Então, cedia tudo.

“Você pode até achar que não precisa de ajuda, garotão, mas eu sei que preciso.”

“Eu preciso de você, só isso.” Segurei seu rosto entre as mãos. “Preciso da minha mulher. E preciso que ela pense em mim, e não em outro cara!”

“Você está fazendo eu me arrepender de ter contado.”

Contorci minha boca em uma linha reta. “Sei como você se sente. Eu vi tudo.”

“Meu Deus. Seu maluco ciumento...”, ela gemeu baixinho. “Por que é tão difícil entender o quanto eu te amo? Perto de você, Brett não significa nada. Nada. Mas, sinceramente, não estou a fim de falar com você agora.”

Sua resistência era palpável, ela tentava me empurrar e me afastar. Fui obrigado a me agarrar a ela como a uma tábua de salvação. “Você não está vendo o que está fazendo comigo?”

Eva aliviou a pressão sobre meus braços. “Não entendo você, Gideon. Como pode ligar e desligar seus sentimentos desse jeito? Mesmo sabendo como me sinto sobre Corinne, como tem coragem de jogar isso na minha cara desse jeito?”

“Você é minha razão de viver, não consigo desligar meus sentimentos.” Dou um beijo no rosto dela. “Só penso em você. O dia todo. Todos os dias. Tudo o que faço é pensando em você. Não existe espaço em mim para mais ninguém. E saber que dentro de você existe espaço para ele acaba comigo.”

“Você não está me escutando.”

“Fica longe desse cara.”

“Isso é fugir do problema, não resolver.” Ela me enlaçou pela cintura. “Minha vida foi destroçada, Gideon, você sabe disso. Só agora estou começando a me recuperar.”

Eu a amava da maneira como ela era. Por que isso não bastava?

“Obrigada por ser mais forte do que eu”, ela continuou, “mas ainda existem questões em aberto e, quando me deparo com uma, preciso resolver. E de forma definitiva.”

“E o que isso significa, porra?” Minhas mãos passeiam para dentro de sua blusa, à procura do toque de sua pele nua.

Ela ficou tensa e me empurrou. “Gideon, não...”

Colei minha boca à dela. Depois a peguei no colo e a pus no chão. Ela tentou resistir. “Nem tenta me afastar”, eu disse com um grunhido.

“Não dá para resolver nossos problemas trepando.”

“Só quero trepar com você, mais nada.” Segurei o elástico do short e puxei tudo para baixo. Estava desesperado para penetrá-la, possuí-la, sentir sua rendição. Qualquer coisa que abafasse a voz na minha cabeça dizendo que eu tinha feito merda. De novo. E que, dessa vez, não seria perdoado.

“Me solta.” Ela rolou de bruços.

Meus braços envolveram seus quadris quando ela tentou fugir rastejando. Eva poderia se desvencilhar de mim, porque era treinada para isso, e podia me fazer parar dizendo uma simples palavra. Sua palavra de segurança...

“Crossfire.”

Ela ficou paralisada ao ouvir minha voz pronunciar a palavra que resumia o turbilhão de sentimentos que tomava conta de mim.

No olho do furacão, tive um estalo. Uma tranquilidade impassível e familiar surgiu dentro de mim, silenciando o pânico que abalava minha confiança. Eu me acalmei, apreciando por um momento a ausência de emoções tempestuosas. Fazia um bom tempo que não me perdia no caos, descontrolado. Somente Eva era capaz de me abalar a esse ponto, me levando de volta a um tempo em que estivera à mercê de tudo e todos.

“Você vai parar de resistir”, eu disse com toda a calma. “E eu vou me desculpar.”

Ela relaxou nos meus braços. Sua submissão foi total e tranquila. Eu estava no comando de novo.

Puxei-a para junto de mim, para que pudesse sentar no meu colo. Eva precisava de mim sob controle. Quando eu perdia a cabeça, ela se apavorava, o que me deixava ainda mais em parafuso. Era um círculo vicioso, e eu precisava quebrá-lo.

“Desculpa.” Queria pedir perdão por tê-la chateado. Por ter perdido o controle da situação. Ainda estava abalado pelo pesadelo — e isso ela foi capaz de perceber. Falar sobre Kline logo em seguida foi demais para mim.

Eu saberia lidar com ele. Não ia perdê-la. Ponto final. Não havia outra opção.

“Preciso do seu apoio, Gideon.”

“Você tem que dizer a ele que casamos.”

Ela apoiou a cabeça no meu rosto. “Vou dizer.”

Eu a ajeitei melhor no colo e me encostei à parede, puxando-a para junto de mim. Eva me abraçou pelo pescoço, e o mundo voltou ao normal. Sua mão foi descendo pelo meu peito. “Garotão...”

Aquele tom sussurrado em sua voz eu conhecia bem. Fiquei de pau duro em um instante, sentindo meu sangue esquentar. Submeter-se a mim deixava Eva com tesão, e essa reação acendia meu fogo como nada mais no mundo.

Pus a mão em seus cabelos e agarrei suas mechas loiras, observando suas pálpebras se fecharem ao meu toque. Ela estava à minha mercê e adorava isso. Na verdade, precisava disso tanto quanto eu.

Ataquei sua boca.

E em seguida ataquei seu corpo todo.


Enquanto Angus nos levava para o trabalho, examinei minha agenda e pensei na viagem de Eva, marcada para as oito e meia.

Olhei para ela. “Você vai para a Califórnia em um dos jatinhos.”

Eva estava olhando pela janela do Bentley, observando a cidade com seu interesse habitual. Desviou o olhar para mim.

Eu nasci em Nova York. Cresci na cidade ou por perto e me sinto em casa aqui. Em algum momento, deixei de me surpreender com ela. Mas o fascínio e o deleite de Eva pelo lugar recuperaram isso. Eu não observava tudo com a mesma intensidade que ela, mas era como se visse a cidade com outros olhos.

“Ah, é?”, Eva rebateu, e seus olhos demonstraram todo o desejo que sentia.

Esse olhar de quem quer ser comida por mim deixava minhas emoções à flor da pele.

“Sim.” Fechei o tablet. “É mais rápido, mais confortável e mais seguro.”

Ela abriu um sorriso. “Tudo bem.”

Esse clima de provocação me cativou, e fiquei tentado a fazer um monte de coisas pervertidas e safadas até que ela se rendesse por inteiro.

“Você precisa avisar Cary, então”, ela continuou, cruzando as pernas e revelando a barra de renda da meia e um pedaço da cinta-liga.

Eva estava vestindo uma camisa vermelha sem mangas, saia branca e salto alto. Um traje de trabalho perfeitamente normal, mas que seu corpo tornava incrivelmente sexy. Uma onda de eletricidade se formou ao nosso redor, o reconhecimento de que éramos perfeitos um para o outro.

“Me convida para ir junto”, pedi, detestando a ideia de ficar longe dela o fim de semana inteiro.

O sorriso desapareceu de seu rosto. “Não posso. Se a ideia é contar para as pessoas que casamos, preciso começar pelo Cary, e não quero fazer isso com você por perto. Ele não pode se sentir de fora da vida que estou construindo com você.”

“Também não posso me sentir de fora.”

Ela segurou minha mão e enlaçou meus dedos. “Passar um tempo a sós com os amigos não faz da gente um casal pior.”

“Prefiro passar o tempo todo com você. Não conheço ninguém mais interessante.”

Eva arregalou os olhos e me encarou. Em seguida entrou em ação, levantando a saia e montando sobre mim antes que me desse conta do que estava acontecendo. Segurando meu rosto entre as mãos, ela colou sua boca na minha e me deu um beijo enlouquecedor.

“Humm”, gemi quando ela se afastou, ofegante. Meus dedos apalparam a curvatura de sua bunda gostosa. “Faz de novo.”

“Estou morrendo de tesão”, ela sussurrou, limpando a boca com o polegar.

“Sou bom nisso.”

Sua risada gostosa me envolveu por inteiro. “Estou me sentindo tão bem...”

“Melhor do que lá no corredor?” A alegria dela era contagiante. Se eu pudesse parar o tempo, escolheria aquele momento para isso.

“É uma sensação diferente.” Os dedos dela acariciavam meus ombros. Ela ficava... radiante quando estava feliz, e sua alegria iluminava tudo ao redor. Até eu. “Foi um tremendo elogio, garotão. Principalmente vindo de Gideon Cross. Você conhece pessoas interessantes todos os dias.”

“E depois fico torcendo para elas irem embora logo para eu poder voltar para você.”

Os olhos dela faiscaram. “Eu te amo tanto que dói.”

Minhas mãos estavam trêmulas, e eu a segurei pela parte de trás das coxas. Meus olhos passearam pelo seu corpo à procura de algo para me ancorar.

Se ela soubesse o que fazia comigo com aquelas palavras...

Eva me abraçou e murmurou: “Queria pedir uma coisa.”

“É só dizer.”

“Vamos fazer uma festinha.”

Ela estava mudando de assunto... “Legal. Vou providenciar os apetrechos.”

Eva se inclinou para trás e empurrou meu ombro. “Não esse tipo de festinha, seu tarado.”

Suspirei. “Que pena.”

Ela abriu um sorriso malicioso. “E se eu prometer uma festinha desse tipo em troca da que estou pedindo?”

“Agora, sim, estamos falando a mesma língua.” Eu me recostei no assento, curtindo imensamente o momento. “Me diz no que está pensando.”

“Bebidas e amigos, os meus e os seus.”

“Certo.” Considerei as possibilidades. “Eu providencio a bebida e os amigos, e em troca você me dá uma rapidinha em um cantinho escuro durante a festa.”

Ela engoliu em seco, e eu abri um sorriso por dentro. Conhecia muito bem meu anjo. Ceder aos impulsos exibicionistas não assumidos de Eva era uma tremenda revolução para mim, mas, apesar de ficar impressionado comigo mesmo, não me senti nem um pouco incomodado. Não havia nada que não fizesse por um daqueles momentos em que tudo o que importava para Eva era ter meu pau dentro dela.

“É difícil negociar com você”, ela falou.

“Não consigo mudar.”

“Tudo bem, então.” Ela lambeu os lábios. “Eu providencio a rapidinha, mas quero uma esfregadinha por baixo da mesa.”

Levantei a sobrancelha. “Por cima da roupa”, rebati.

Algo que parecia o ronronar de uma gata preencheu o ar entre nós. “Acho que precisamos rever alguns pontos, sr. Cross.”

“Acho que você vai precisar de argumentos melhores para me convencer, sra. Cross.”

Como sempre, a negociação com ela era a mais interessante e revigorante do meu dia.


Nós nos despedimos no vigésimo andar, quando ela saiu do elevador e entrou no hall da Waters Field & Leaman. Eu estava determinado a incorporá-la à minha equipe, para que trabalhasse para mim. Todos os dias, pensava em uma estratégia para atingir esse objetivo.

Quando cheguei ao escritório, meu assistente já estava a postos em sua mesa.

“Bom dia”, Scott me cumprimentou, ficando de pé. “O pessoal da assessoria de imprensa ligou uns minutos atrás. Estão recebendo uma quantidade incomum de perguntas sobre um suposto noivado seu, e querem saber o que responder.”

“Diga que podem confirmar.” Passei por ele e fui até o cabideiro atrás da minha mesa.

Scott veio atrás. “Parabéns.”

“Obrigado.” Tirei o paletó e pendurei em um gancho. Quando me virei de novo, ele estava sorrindo.

Scott Reid resolvia uma porção de problemas para mim de forma absolutamente discreta, o que levava muita gente a subestimá-lo, e também permitia que passasse despercebido. Em mais de uma ocasião, seu olhar sobre situações e pessoas tinha se mostrado muito acertado. Queria tê-lo sempre ao meu lado, e por isso lhe pagava um salário muito acima do razoável para o cargo.

“A srta. Tramell e eu vamos nos casar até o fim do ano”, informei. “Todos os pedidos de entrevistas e fotos para qualquer um de nós dois devem ser feito através da assessoria das Indústrias Cross. Pode dizer isso para o pessoal da segurança do prédio também. Ninguém pode falar com ela sem passar por mim primeiro.”

“Vou repassar as instruções. Além disso, o sr. Madani pediu para ser informado da sua chegada. Ele quer falar com você antes da reunião desta manhã.”

“Ele pode vir quando quiser.”

“Ótimo”, disse Arash Madani, entrando na sala. “Em outros tempos você chegava aqui antes das sete. Está ficando mole, Cross.”

Olhei feio para o advogado, mas não estava irritado de verdade. Arash vivia para trabalhar e era muito bom no que fazia, por isso mesmo eu o tinha tirado de seu antigo emprego. Ele era o advogado mais durão que eu já tinha visto, e isso não mudou.

Apontando para uma das duas cadeiras diante da minha mesa, eu me acomodei e esperei que Arash fizesse o mesmo. Seu terno azulescuro era simples, mas elegante, e seus cabelos ondulados estavam muito bem aparados. Uma inteligência aguda era visível em seus olhos, e ele tinha um sorriso que era mais um alerta que uma saudação. Além de funcionário, era também um amigo, e eu apreciava seu jeito direto e sem rodeios.

“Recebemos uma oferta razoável pelo imóvel da rua 36”, ele anunciou.

“Ah, é?” Um turbilhão de sentimentos me impediu de responder imediatamente. O hotel que Eva tanto detestava continuaria sendo um problema enquanto eu não me livrasse dele. “Isso é bom.”

“Isso é estranho”, ele rebateu, apoiando o tornozelo de uma perna no joelho da outra, “considerando como o mercado ainda está devagar. Tive que investigar um bocado, mas descobri que a proposta veio de uma subsidiária da LanCorp.”

“Interessante.”

“Arrogância pura. Landon sabe que a proposta poderia ser melhor... uns dez milhões a mais. Recomendo tirar a propriedade do mercado e voltar a fazer uma sondagem daqui a um ano ou dois.”

“Não.” Eu me recostei e recusei a sugestão com um gesto de mão. “Se ele quer tanto assim, que compre.”

Arash piscou algumas vezes. “Está de brincadeira? Por que tanta pressa em se desfazer desse hotel?”

Porque se não o fizer minha esposa vai ficar chateada. “Tenho meus motivos.”

“Foi isso que você disse quando recomendei a venda do hotel alguns anos atrás, mas então você fez uma reforma milionária, que finalmente está começando a se pagar. E agora quer vender com o mercado em baixa, e para um cara que quer sua cabeça?”

“O mercado imobiliário nunca está em baixa em Manhattan.” E, com certeza, qualquer hora era hora de me livrar de um lugar que Eva chamava de meu “matadouro”.

“Mas não fica sempre em alta, e você sabe disso. Landon sabe disso. Se aceitar, você vai dar mais munição para ele.”

“Ótimo. Quem sabe assim Landon não eleva o nível do jogo?”

Ryan Landon tinha suas motivações — e eu não podia culpá-lo por isso. Por causa do meu pai, os Landon quase perderam toda a sua fortuna, e Ryan queria que um Cross pagasse por isso. Ele não era o primeiro nem seria o último homem de negócios disposto a se vingar do meu pai, mas era o mais determinado. E, como era jovem, tinha tempo de sobra para se dedicar a isso.

Olhei para a foto de Eva na minha mesa. Todas as outras questões eram secundárias perto dela.

“Ei”, disse Arash, levantando as mãos, “quem dá as cartas aqui é você. Só preciso saber que as regras do jogo mudaram.”

“Nada mudou.”

“Se realmente acha isso, Cross, está mais por fora do que eu pensava. Enquanto Landon tramava sua ruína, você estava na praia.”

“Para de me encher por causa de um fim de semana de folga, Arash.” Eu faria isso de novo sem pensar duas vezes. Passar aqueles dias com Eva à beira-mar foi a realização de um sonho para mim.

Eu me levantei e fui até a janela. A sede da LanCorp ficava em um edifício alto a dois quarteirões de distância, e da sala de Ryan Landon se podia ter uma boa visão do Edifício Crossfire. Provavelmente ele passava mais que alguns minutos por dia olhando para meu escritório e planejando seu próximo passo. De vez em quando, eu olhava para lá, como que aceitando o desafio.

Meu pai foi um criminoso e arruinou inúmeras vidas. Mas também foi o homem que me ensinou a andar de bicicleta e me orgulhar do meu nome. Eu não podia salvar a reputação de Geoffrey Cross, mas com certeza ia proteger o que construí a partir de suas cinzas.

Arash foi até mim junto à janela. “Não estou dizendo que não me esconderia do mundo com uma mulher como Eva Tramell se pudesse. Mas com certeza levaria meu celular. Principalmente no meio de uma negociação importante.”

Lembrando o gosto do chocolate derretido na pele de Eva, concluí que nem se um furacão arrancasse o telhado da casa eu desviaria minha atenção por mais de um segundo. “Só lamento por você.”

“A aquisição daquele software pela LanCorp vai custar a você vários anos de pesquisa e desenvolvimento. E aumentou a pretensão dele ainda mais.”

Era isso que realmente incomodava Arash, a satisfação de Landon com seu sucesso. “Aquele software não tem quase valor nenhum sem a plataforma PosIT.”

Ele me encarou. “E?”

“Item número três da pauta.”

Ele continuou me olhando. “Na minha cópia diz ‘a ser determinado’.”

“Bom, na minha diz ‘plataforma PosIT’. Ainda acha que estou por fora?”

“Porra...”

O telefone da minha mesa tocou, e a voz de Scott saiu pelo alto-falante. “Duas coisas, sr. Cross. A srta. Tramell está na linha um.”

“Obrigado, Scott.” Fui para minha mesa com a emoção da caçada ainda nas veias. Se conseguíssemos comprar a PosIT, Landon voltaria à estaca zero. “Quando desligar, preciso que você ligue para Victor Reyes.”

“Certo. A segunda coisa é que a sra. Vidal está na recepção”, ele continuou, fazendo-me deter o passo. “Quer que eu adie sua reunião da manhã?”

Olhei pela divisória de vidro que separava minha sala do restante do andar, apesar de saber que não conseguiria ver minha mãe àquela distância. Segundo o relógio do celular, eu tinha dez minutos para falar com minha esposa antes de começar a trabalhar. Minha vontade era dizer que minha mãe esperasse e eu falaria com ela quando pudesse, não quando ela quisesse, mas resolvi ceder.

“Consegue mais vinte minutos pra mim”, eu disse a ele. “Vou falar coma srta. Tramell e depois com Reyes, então pode trazer a sra. Vidal.”

“Entendido.”

Esperei um pouco antes de pegar o telefone e apertar o botão que piscava.

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