Sylvia Day
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Feb 5, 2014  •  Paralela  •  9788565530453

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Capítulo 1

Elijah Reynolds estava nu sobre uma rocha no meio do bosque que cercava o lago Navajo, vendo seus sonhos queimarem com as instalações logo abaixo. Uma fumaça acre e escura se elevava no ar em colunas espessas que podiam ser vistas a quilômetros de distância.

Os anjos saberiam que uma rebelião havia começado muito antes de chegarem às ruínas de suas construções.

A seu redor, licanos gritavam e comemoravam com alegria, mas Elijah não compartilhava desse sentimento. Ele se sentia morto por dentro, observando a vida que tinha levado até ali ser reduzida a cinzas junto com o lugar que costumava ser seu lar. Só havia uma coisa que ele sabia de fato fazer: caçar vampiros. E só podia se dedicar a isso porque trabalhava para os Sentinelas — a elite dos anjos guerreiros. A servidão advinda desse fato, apesar de incômoda, era para ele um pequeno preço a pagar para poder fazer aquilo que amava. No entanto, pouquíssimos licanos pensavam como ele, o que ficou bem claro no rumo que as coisas tomaram. Tudo o que importava para Elijah estava perdido, e o que restava era uma batalha pela independência na qual ele não estava disposto a investir.

Por outro lado, o que estava feito não podia ser mais desfeito. Ele teria que conviver com aquilo.

“Alfa.”

Elijah cerrou os dentes ao ser chamado por uma designação que nunca quis. Ele encarou a mulher nua que se aproximava. “Rachel.”

Ela baixou os olhos.

Ele esperou que ela falasse, e então percebeu que ela estava fazendo o mesmo. “Agora você quer ouvir o que eu tenho a dizer?”

Ela pôs as mãos para trás e abaixou a cabeça. Irritado pela falta de convicção da parte dela, Elijah virou a cara. Ele tinha dito que uma rebelião seria suicídio. Os Sentinelas os caçariam um a um, eles seriam aniquilados. O único propósito da existência dos licanos era servir aos anjos — caso não fizessem mais isso, não teriam por que continuar no mundo. Mas ela se recusava a ouvir. Ela e Micah, seu parceiro — e melhor amigo de Elijah —, tinham incitado os demais a cometer aquela demonstração ostensiva de pura estupidez.

Ele sentiu a aproximação de um licano macho antes mesmo de enxergá-lo. Ao virar a cabeça, Elijah viu um lobo de pelagem dourada aparecer e se transformar em um homem alto e loiro.

“Eu resolvi seguir meu instinto de autopreservação, Alfa”, disse Stephan.

Isso confirmou a suspeita de Elijah de que alguns licanos haviam fugido da batalha sem parar para pensar nos dias terríveis que certamente viriam. Ou talvez alguns deles, mais espertos, tenham voltado para os Sentinelas. Ele não os condenaria nesse caso.

“Montana?”, perguntou Rachel, esperançosa.

Elijah sacudiu a cabeça, lembrando a si mesmo da promessa de cuidar dela que havia feito a Micah no leito de morte. “Nós nunca conseguiríamos chegar tão longe. Os Sentinelas nos alcançariam em questão de horas.”

Uma Sentinela tinha fugido no meio do conflito, abrindo suas asas azuis para voar para longe e comunicar os demais sobre a rebelião. O restante ficou para lutar, mas as pontas afiadas de suas asas não eram suficientes para oferecer proteção contra a numerosa matilha do lago Navajo, que já vinha precisando de cortes fazia meses. Em desvantagem numérica, os Sentinelas entraram em uma luta até a morte, cientes de que era essa atitude que Adrian, seu capitão, esperava deles. Durante as semanas em que foi membro da matilha de Adrian, Elijah pôde testemunhar com os próprios olhos o nível de comprometimento e obstinação do líder dos Sentinelas. Apenas uma coisa era capaz de fazer Adrian perder o foco, e nem mesmo ela conseguia atenuar seu instinto matador.

“Existe uma rede de cavernas interligadas perto de Bryce Canyon.” Elijah se virou para ver as instalações do lago Navajo pela última vez. “Vamos nos esconder por lá até nos organizarmos melhor.”

“Cavernas?”, questionou Rachel, fazendo uma careta.

“Isso não foi uma vitória, Rachel.”

Ela se encolheu ao sentir toda a fúria na voz dele. “Nós estamos livres.”

“Nós éramos caçadores, e agora somos a caça. Isso não é progresso nenhum. Nós só nos aproveitamos de um momento de fraqueza dos Sentinelas. Eles estavam em desvantagem de vinte para um, foram pegos de surpresa e estavam sem Adrian, que está atolado até o pescoço com problemas sérios, fora de combate. O que aconteceu aqui não foi o começo de nada, nós queimamos nosso único cartucho.”

Rachel jogou os ombros para trás, projetando seus seios pequenos para a frente. A nudez não significava nada para os licanos — pele, pelagem, para eles dava no mesmo. “Nós aproveitamos nossa oportunidade.”

“Sim, aproveitaram. E agora vão precisar confiar em mim para lidar com as consequências.”

“Era isso que Micah queria, El.”

Elijah suspirou e sentiu sua raiva ser engolfada por um sentimento de tristeza e luto. “Eu sei o que ele queria, uma casa em um bairro de classe média, um emprego convencional, conviver bem com os vizinhos, passear com as crianças. Eu faria qualquer coisa para realizar esse sonho... para proporcionar aos demais licanos a chance de querer o mesmo. Mas é impossível. Nisso eu já fracassei antes mesmo de começar, porque na verdade nunca tive chance nenhuma.”

Eles não faziam ideia do quanto aquela impossibilidade de sucesso o fazia sofrer. E ele nunca diria. Só o que podia fazer era tentar manter vivos aqueles que dependiam dele.

Elijah olhou para Stephan. “Precisamos mandar emissários para as outras matilhas. De preferência casais.”

Os casais fariam de tudo para evitar a morte de seus pares. Em uma situação como aquela, em que seriam caçados e estariam afastados da matilha, era preciso contar com toda a colaboração disponível.

“Notifique o máximo possível de licanos”, ele continuou, fazendo movimentos circulares com o ombro para aliviar a tensão no pescoço. “Adrian vai cortar a comunicação de todas as matilhas, celulares, internet, correio. As equipes vão ter que cumprir a missão pessoalmente, cara a cara.”

Stephan balançou a cabeça. “Pode deixar.”

“Todos precisam sacar seu dinheiro antes que Adrian mande congelar as contas.” Como em teoria os licanos eram empregados da empresa aérea de Adrian, a Mitchell Aeronáutica, seus vencimentos eram depositados em uma cooperativa de crédito sobre a qual o Sentinela detinha controle total.

“A maioria já fez isso”, Rachel falou baixinho.

Pelo menos nisso ela tinha pensado com antecedência. Elijah mandou que ela reunisse os demais, e então se virou para Stephan. “Preciso de dois licanos dos mais confiáveis para uma missão especial: encontrar Lindsay Gibson. Preciso saber onde ela está, e como está.”

Stephan arregalou os olhos diante da menção à namorada de Adrian.

Elijah precisou lutar contra a vontade de ir pessoalmente atrás de Lindsay, uma mortal que ele considerava uma amiga, a única que tinha no mundo depois da morte de Micah. Em diversos sentidos, ela era um mistério. Havia entrado na vida dele sem aviso, realizando proezas de que nenhum humano era capaz, e monopolizando as atenções do líder dos Sentinelas de uma maneira que Elijah nunca tinha visto.

Ao contrário dos Decaídos, que perderam as asas por confraternizar com os mortais, os Sentinelas eram anjos acima de qualquer suspeita. Os pecados da carne e os caprichos das emoções humanas estavam bem distantes das alturas que eles habitavam. Elijah nunca tinha visto um Sentinela mostrar nem uma faísca de desejo ou interesse... até que Adrian pusesse os olhos sobre Lindsay Gibson e tomasse posse dela com uma ferocidade que surpreendeu a todos. O líder dos Sentinelas protegeu a vida dela com mais empenho do que a sua própria, designando Elijah para cuidar da segurança de Lindsay mesmo sabendo que ele era um raro caso de licano alfa, que costumavam ser sistematicamente removidos das matilhas.

Foi durante o período em que se encarregou da segurança de Lindsay que a amizade entre eles surgiu. A camaradagem inicial cresceu a ponto de eles arriscarem a própria vida um pelo outro. Eu levaria um tiro por você, ela falou para ele certa vez. Não era todo mundo que tinha amigos assim. Elijah certamente não tinha. Ele podia até ter se tornado o Alfa de sua matilha, mas jamais deixaria de se preocupar com Lindsay. Ela havia desaparecido debaixo das vistas dos Sentinelas, e ele só descansaria quando soubesse que estava tudo bem.

“Quero que a segurança dela seja garantida”, disse Elijah, “custe o que custar.”

Stephan balançou a cabeça afirmativamente. Essa obediência sem questionamentos fez com que surgisse pela primeira vez dentro de Elijah a esperança de que eles tivessem alguma chance de sobreviver no fim das contas.

“Que maravilha.” Vash olhou para o traje de proteção em suas mãos e sentiu um frio na barriga.

A Dra. Grace Petersen coçou um dos olhos com a mão fechada. “Nós não sabemos ao certo como a doença é transmitida. É melhor prevenir que remediar, acredite em mim. Melhor não arriscar.”

Enquanto vestia o traje, Vash tentou espantar o pânico que surgia em sua mente. Ela se concentrou em tentar reviver o distanciamento e o estado mental de quando vivia na terra como uma Vigia. Fazia tempo que ela não agia sem a beligerância que aprendeu a cultivar como vampira, mas aquela era uma batalha que não poderia ser travada com as presas e os punhos.

“Você tem muita coragem, Gracie”, ela falou pelo microfone no capacete.

“Olha quem fala, a mulher que enfrenta oponentes da altura de ônibus de dois andares.”

Já aparamentadas, as duas entraram na antessala hermeticamente fechada da área de quarentena e, depois do acendimento da luz verde, tiveram o acesso à sala interna liberado. Lá dentro, um homem estava deitado em uma maca como se dormisse, com as feições relaxadas e em repouso. Apenas as sondas intravenosas nos braços e a respiração rasa e acelerada denunciavam que estava doente.

“O que estão dando para ele?”, perguntou Vash. “É sangue?”

“É uma transfusão, sim. E ele está sendo mantido em um coma induzido.” Grace olhou para Vash através da viseira do capacete com uma expressão cautelosa e austera. “O nome dele é King. Quando era mortal, chamava-se William King. Era meu principal assistente até esta manhã, quando foi mordido por um dos vampiros infectados que capturamos ontem.”

“E a infecção é assim tão rápida?”

“Depende. De acordo com os resultados preliminares das pesquisas de campo, alguns vampiros são imunes. Outros demoram semanas para começar a exibir sintomas. Já outros, como King, sucumbem em questão de horas.”

“E quais são os sintomas, exatamente?”

“Apetite voraz, agressividade desmedida e uma tolerância à dor acima do normal. Eles estão sendo chamados de espectros.”

“Por quê?”

“Eles são apenas sombras do que costumavam ser. Estão lá e ao mesmo tempo não estão. A mente e a personalidade estão aniquiladas, mas o corpo permanece em atividade. Aqueles que eu consegui manter vivos por mais alguns dias iam perdendo pigmento e melanina no cabelo e na pele. Até as íris dos olhos ficam cinzentas. E veja só isso.”

Grace afastou a franja da testa de King com um movimento suave da mão trêmula. “Desculpa, amigo”, ela murmurou e apanhou um aparelho com fio que parecia um leitor de código de barras. Agarrando o pulso do paciente, ela direcionou o dispositivo para seu antebraço e ativou uma luz pálida. Raios ultravioletas.

Vash se inclinou para perto, examinando a pele sob a luz. Ela começou a estremecer, como se o músculo logo abaixo estivesse tendo um espasmo, mas esse era único sinal de reação ao estímulo. “Puta merda. Tolerância a raios UV?”

“Não exatamente.” Grace desligou o dispositivo e o deixou de lado. “Não existe nenhuma imunidade de fato, os tecidos ainda estão queimando. A diferença é que eles se regeneram em uma velocidade aceleradíssima. As células danificadas se restabelecem assim que são destruídas. Por isso não há nenhum dano visível ou permanente. Eu fiz esse mesmo teste com outros dois pacientes, com o mesmo resultado.”

Elas trocaram olhares.

“Não existe motivo para empolgação”, murmurou Grace. “É a renovação celular que está causando todos os outros sintomas. O apetite insaciável vem da necessidade de suprir o gasto descomunal de energia necessário para a regeneração. A agressividade vem da fome, do fato de estar desesperado para comer o tempo todo. E a tolerância à dor é porque eles não conseguem se concentrar em mais nada além da necessidade de se alimentar. Eles não conseguem nem pensar, ponto final. Você já viu um espectro em ação?”

Vash sacudiu a cabeça.

“Eles são como zumbis em uma espécie de frenesi. As atividades cerebrais mais sofisticadas são substituídas pelo instinto puro e simples.”

“A transfusão é porque ele vai morrer se não receber um fluxo contínuo de sangue?”

“Eu aprendi isso da pior maneira. Depois de sedar dois capturados, já que não dá para chegar perto deles enquanto estão acordados, eles se liquefizeram. O metabolismo ficou tão acelerado que eles praticamente digeriram a si mesmos. Viraram uma gosma. Uma cena nada bonita.”

“É possível que Adrian tenha desenvolvido essa coisa em um laboratório qualquer?” O líder dos Sentinelas comandava a unidade de elite de serafins responsável por amputar as asas dos Caídos. Usando os licanos como cães pastores, Adrian pôde impedir que os vampiros se expandissem na direção das áreas mais populosas. O resultado disso era uma escassez territorial e um aperto financeiro constante.

“Tudo é possível, mas eu não chegaria a esse ponto.” Grace apontou para King. “Não imagino que Adrian pudesse fazer isso. Não é o estilo dele.”

Para dizer a verdade, Vash também não. Adrian era um guerreiro nato. Se estivesse atrás de briga, iria querer que ela fosse resolvida mano a mano, cara a cara. Por outro lado, ele tinha muito a ganhar se a comunidade dos vampiros minguasse até desaparecer. Sua missão estaria concluída, ele poderia deixar o planeta — junto com toda a dor, o sofrimento e a imundice. Isso se ele ainda quisesse ir depois de conhecer Lindsay, que não poderia acompanhá-lo.

Atenuando o tom de voz, Vash expressou sua solidariedade. “Sinto muito pelo seu amigo, Gracie.”

“Me ajude a descobrir uma cura, Vash. Me ajude a salvá-lo, e os outros também.”

Era por isso que ela tinha ido até lá, a mando de Syre. Os casos da doença estavam se espalhando pelo país, e com uma rapidez que logo seria suficiente para configurar uma epidemia. “Do que você precisa?”

“Mais pacientes, mais sangue, mais equipamento, mais pesquisadores.”

“Claro. Só me faça uma lista.”

“Essa é parte mais simples.” Grace cruzou os braços e olhou para King. “Preciso saber onde o Vírus Espectral apareceu pela primeira vez. Em qual parte do país, qual estado, qual cidade, qual casa, qual cômodo da casa. Os mínimos detalhes. Homem ou mulher. Jovem ou velho. Raça e porte físico. Preciso que você encontre a primeira vítima da doença. E depois a segunda. Qual era sua relação com a primeira? As duas viviam na mesma casa? Dormiam na mesma cama? Ou era uma ligação menos próxima? Elas eram parentes? E depois preciso da quarta e da quinta vítima. Estou falando de um esquema seis graus de separação levado ao extremo. Preciso de dados suficientes para estabelecer um padrão e um ponto de origem.”

Sentindo-se sufocada pelo traje de proteção, Vash caminhou a passos rápidos até a porta. Grace a alcançou e digitou o código para liberar o acesso à antessala.

“O que você está pedindo envolve muito trabalho”, murmurou Vash, seguindo o exemplo de Grace e se posicionando sobre um círculo pintado no chão. Alguma coisa foi borrifada do encanamento logo acima, envolvendo seu traje em uma fina névoa.

“Eu sei.”

Havia dezenas de milhares de lacaios, mas sua incapacidade de tolerar a luz do sol limitava um bocado sua atuação. Os Caídos originais não tinham essa restrição, mas eram bem menos numerosos, não chegavam a duzentos. Um número insuficiente para fornecer o sangue que proporcionaria imunidade temporária a tantos lacaios, principalmente na quantidade necessária para executar uma busca como aquela em tão pouco tempo.

Enquanto removia seu traje, Vash fez movimentos circulares com os ombros e tentou pensar melhor. Os primeiros casos da doença apareceram na mesma época que o amor perdido de Adrian. Fazer um cronograma exato ajudaria a estabelecer se o líder dos Sentinelas tinha ou não alguma participação naquele caso. “Eu vou dar um jeito.”

“Eu sei que vai.” Grace se interrompeu enquanto prendia os cabelos loiros repicados para observar Vash. “Você ainda está de luto.”

Vash olhou para as calças e o colete de couro preto que vestia e encolheu os ombros. Mesmo depois de sessenta anos, a dor permanecia lá, para lembrá-la de que ainda era preciso vingar a morte brutal de Charron. Um dia ela ainda encontraria um licano que lhe forneceria as pistas de que precisava para caçar os assassinos de Char. Ela só esperava que isso não acontecesse quando os responsáveis já tivessem morrido, fosse em uma caçada ou pela idade avançada. Ao contrário de Sentinelas e vampiros, os licanos eram mortais e tinham prazo de validade.

“Vamos fazer a lista”, ela disse animada, pronta para dar início à tarefa monumental que tinha pela frente.

Syre assistiu ao vídeo até o fim, depois se pôs de pé com um movimento súbito. “O que você acha disso?”

Vash cruzou as pernas sob a mesa, sentada na cadeira. “Estamos fodidos. Não temos gente suficiente para resolver isso na velocidade com que a doença... o Vírus Espectral, como ela chamou... Com o vírus se espalhando dessa maneira, não temos recursos para deter sua ação.”

Ele enfiou as mãos nos cabelos escuros e espessos e soltou um palavrão. “Nós não podemos morrer desse jeito, Vashti. Não depois de passar por tudo o que passamos.”

O sofrimento do líder dos Caídos era tangível. De pé diante da janela que dava para a rua principal de Raceport, na Virgínia, uma cidade que ele tinha construído a partir do zero, Syre agia como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. Não eram só os problemas enfrentados pelos vampiros que o atormentavam. Ele ainda estava sofrendo pela perda da filha, cujo retorno esperou durante séculos. Syre ficou abalado demais com aquele infortúnio. Ninguém havia percebido ainda, mas Vash o conhecia bem demais. Alguma coisa tinha mudado dentro dele, alguma chave havia sido virada. Ele estava mais duro, menos flexível, e isso se refletia em suas decisões.

“Vou fazer o melhor que puder”, ela prometeu. “Todos nós vamos. Somos guerreiros, Syre. Ninguém aqui pretende desistir.”

Ele se virou para encará-la, com uma expressão furiosa a atormentar suas belas feições. “Recebi um telefonema interessante enquanto você estava com Grace.”

“Ah, é?” O tom de voz dele, além do brilho no olhar, fizeram com que ela se preocupasse. Ela sabia que aquele olhar só podia significar uma coisa: ele estava decidido, mas esperava enfrentar resistência.

“Os licanos se rebelaram.”

Vash sentiu um frio na espinha, o que sempre acontecia ao ouvir falar nos cães dos Sentinelas. “Como? Quando?”

“Na semana passada. Acho que a distração de Adrian com a minha filha proporcionou a eles uma oportunidade de se libertar.” Ele cruzou os braços, fazendo seus bíceps poderosos se flexionarem. O Sentinela só tinha se interessado por Lindsay Gibson porque ela era a mais recente encarnação de Shadoe, filha de Syre e amor da vida de Adrian. No fim, Lindsay acabou ganhando o coração de Adrian e o direito a comandar seu próprio corpo, deixando Syre arrasado pela perda da filha e Adrian um tanto perplexo e desorientado. “Os licanos vão precisar de nós se quiserem permanecer livres, e ao que parece nós precisamos deles tanto quanto.”

Ela se levantou. “Você não pode estar falando sério.”

“Eu entendo o que isso significa para você.”

“Ah, é? Isso é o mesmo que eu pedir para você trabalhar com Adrian, mesmo sabendo que ele é o responsável pela morte da sua filha. Ou então pedir para você se associar ao demônio que matou sua mulher.”

Ele respirou fundo, expandindo lentamente o peito. “Se o destino de todos os vampiros do mundo dependesse disso, eu não me recusaria.”

“Vai se foder, não tenta jogar esse sentimento de culpa em cima de mim.” Essas palavras saíram sem que ela se desse conta. Fosse como fosse sua relação com Syre, ele ainda era seu oficial superior. “Perdão, comandante.”

Ele a desculpou com um movimento impaciente com o pulso. “Você vai se redimir disso encontrando o licano Alfa e propondo uma aliança para ele.”

“Não existem licanos Alfa. Os Sentinelas fizeram questão de acabar com eles.”

“Sem um Alfa, essa rebelião nunca teria acontecido.”

Ela começou a andar de um lado para o outro, golpeando o chão de madeira com o salto. “Mande Raze ou Salem”, ela sugeriu, oferecendo seus dois melhores capitães. “Ou os dois.”

“Precisa ser você.”

“Por quê?”

“Porque você odeia os licanos, e o seu desprezo vai ser um bom disfarce para o nosso desespero.” Ele contornou a mesa, sentou-se de lado em uma das pontas e cruzou as pernas. “Eles não podem começar em vantagem. Vão ter que acreditar que precisam mais de nós do que nós deles. E você é minha tenente. Sua presença é um sinal de que estou falando sério ao propor uma aliança.”

A ideia de trabalhar ao lado dos licanos provocou tamanha ira dentro dela que fez sua visão ficar borrada. E se por acaso ela acabasse colaborando com os licanos que deixaram Charron em pedaços? E se salvasse a vida de um deles, imaginando se tratar de um aliado? Era uma hipótese tão absurda que revirou seu estômago. “Antes me dê um tempo para tentarmos resolver tudo sozinhos. Se eu não conseguir avançar em duas semanas, nós podemos reconsiderar.”

“Até lá Adrian já pode ter exterminado todos os licanos. É preciso agir agora, enquanto eles ainda não sabem o que fazer. Imagine a rapidez com que poderemos conduzir as investigações se tivermos ao nosso dispor milhares de licanos.”

Ela continuava a andar de um lado para outro pela sala a uma velocidade que deixaria qualquer mortal tonto. “Então me diga que o seu pedido não tem nada a ver com o ódio que sente por Adrian.”

Syre entortou a boca para o lado. “Você sabe que isso não é possível. Minha intenção é mesmo chutar Adrian enquanto ele está caído. Claro que sim. Mas isso não seria motivo para fazer esse pedido a você, sabendo o quanto iria lhe custar. Minha consideração por você é muito maior que isso.”

Vash se deteve e caminhou até ele. “Vou fazer isso porque é uma ordem sua, mas não irei desistir do meu intuito pessoal. Vou aproveitar a oportunidade para descobrir quem foram os responsáveis pela morte de Charron. Quando eu tiver essa informação em mãos, não responderei mais pelos meus atos. Se isso não é aceitável para você, eu cumpro a ordem de propor a aliança e depois desapareço no mundo.”

“Nada disso.” O tom grave de Syre era um alerta bem claro. “Você tem todo o meu apoio, Vashti. E sabe muito bem disso. Só que, neste momento, as necessidades da coletividade dos vampiros vêm em primeiro lugar.”

“Muito bem.”

Ele acenou com a cabeça. “A revolta começou na matilha do lago Navajo. Comece por Utah. Eles não devem ter ido muito longe.”

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