Sylvia Day
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Dec 7, 2012  •  Companhia das Letras  •  9788565530194

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Capítulo 1

Eu amava Nova York de maneira ensandecida. Era o tipo de paixão que reservava a apenas mais uma coisa na minha vida. A cidade era um microcosmo que aliava as oportunidades do Novo Mundo às tradições do Velho Continente. Conservadores andavam lado a lado com boêmios. Novidades bizarras ocupavam o mesmo espaço que raridades de valor inestimável. A energia pulsante da cidade alavancava grandes negócios internacionais, atraindo gente de todo o mundo.

E a encarnação de toda essa vibração, ambição irrefreável e sede de poder em escala global havia acabado de me proporcionar dois orgasmos incríveis, de contorcer os dedos do pé.

Enquanto eu caminhava até o closet gigantesco, olhei para a cama desarrumada de Gideon Cross e estremeci com a recordação do prazer que havia sentido ali. Meus cabelos ainda estavam molhados do banho, e eu tinha apenas uma toalha enrolada no corpo. Faltava uma hora e meia para o início do expediente, de modo que eu não tinha tempo a perder. Eu precisava reservar um tempinho na rotina da manhã para o sexo, caso contrário estaria sempre atrasada. Gideon sempre acordava pronto para conquistar o mundo e gostava de exercitar seu lado dominador comigo antes de qualquer outra coisa.

Eu tinha mesmo muita sorte.

O mês de julho estava chegando, e a temperatura em Nova York só subia. Escolhi uma calça de linho bege e uma blusinha cinza sem mangas que combinava com meus olhos. Como não tinha o menor talento para me pentear, prendi meus longos cabelos loiros em um rabo de cavalo simples e me maquiei. Quando senti que estava apresentável, saí do quarto.

Assim que pisei no corredor, ouvi a voz de Gideon. Senti um pequeno arrepio percorrer meu corpo quando percebi que ele estava irritado. Seu tom de voz era seco e grave. Ele não perdia a cabeça com facilidade... a não ser que eu o provocasse. Era capaz de fazê-lo gritar, xingar e querer arrancar os lindos cabelos negros que cobriam sua cabeça.

Na maior parte do tempo, porém, Gideon era um exemplo de força bruta contida. Ele não precisava gritar quando queria intimidar alguém — bastava um olhar ou uma palavra mais incisiva.

Fui até o escritório. Ele estava de pé, de costas para a porta, usando um fone de ouvido. Com os braços cruzados, olhava pela janela de sua cobertura na Quinta Avenida, transmitindo a imagem de uma pessoa profundamente solitária, alheia ao mundo a seu redor, embora capaz de governá-lo — em todos os sentidos.

Apoiada ao batente da porta, saboreei a visão. Com certeza minha vista de Nova York era muito mais inspiradora que a dele. Da minha perspectiva, além dos arranha-céus, via-se um homem igualmente imponente. Gideon tinha tomado banho antes que eu saísse da cama. Ele vestia duas das três peças de um caríssimo terno feito sob medida — o tipo de roupa que me excitava num homem — sobre seu corpo altamente viciante. Vendo-o de costas, eu podia admirar sua bunda perfeita e suas costas largas delineadas pelo colete.

Na parede, havia uma enorme colagem de imagens de nós dois, além de uma foto muito íntima tirada enquanto eu dormia. A maioria delas havia sido feita pelos paparazzi que nos seguiam a cada passo. Ele era Gideon Cross, das Indústrias Cross, que aos vinte e oito anos já era uma das vinte pessoas mais ricas do mundo. Eu desconfiava que ele era dono de boa parte de Manhattan, e tinha certeza absoluta de que era o homem mais lindo do planeta. Havia fotos minhas espalhadas por todos os escritórios de Gideon, como se olhar para mim fosse tão divertido quanto olhar para ele.

Ele se virou, girando elegantemente sobre os pés para me encarar com seus olhos azuis. Gideon sabia que eu estava lá, olhando para ele. Havia uma energia no ar quando chegávamos perto um do outro, uma espécie de tensão nervosa que lembrava o silêncio que precede um trovão. Ele provavelmente tinha adiado de propósito o momento em que ficaria de frente para mim, de modo que eu pudesse admirá-lo mais um pouco.

Um moreno perigoso. E todo meu.

Nossa... Eu jamais me acostumaria com o impacto daquele rosto. O contorno de suas feições, as sobrancelhas arqueadas, os olhos azuis com cílios grossos e aquela boca... perfeitamente talhada para ser igualmente sensual e perversa. Eu adorava quando aquela boca sorria me convidando para o sexo, e estremecia quando a via se contrair em uma expressão fria e tensa. Quando aqueles lábios tocavam meu corpo, eu ardia.

Que maluquice é essa? Abri um sorriso ao me lembrar do quanto me irritava ouvir minhas amigas descrevendo poeticamente a beleza de seus namorados. Mas lá estava eu, sempre de queixo caído diante do visual irresistível daquele homem complicado, perturbador, traumatizado e sexy por quem eu me apaixonava um pouco mais a cada dia.

Ainda que olhássemos um para o outro, sua expressão não se amenizou, e ele não parou nem por um instante de falar com o pobre coitado do outro lado da linha, mas a irritação implacável em seu olhar foi substituída por uma intensidade dramática.

Eu já deveria ter me acostumado à mudança que ocorria quando ele me olhava, mas ainda me abalava a ponto de estremecer. Aquele olhar demonstrava a força e a intensidade com que ele queria me comer — o que fazia sempre que possível — e me oferecia um vislumbre de sua determinação irreprimível. A liderança e o pulso firme eram a marca de Gideon em tudo o que fazia na vida.

“Vejo você no sábado, às oito”, ele disse antes de arrancar o fone de ouvido e arremessá-lo sobre a mesa. “Vem cá, Eva.”

Mais uma vez estremeci ao ouvi-lo dizer meu nome no mesmo tom autoritário com que dizia “Goza, Eva” quando eu estava debaixo dele... sentindo-o dentro de mim... desesperada para chegar ao orgasmo...

“Não temos tempo para isso, garotão...” Voltei para o corredor, porque não confiava em mim mesma quando estava perto dele. O leve toque de rouquidão em seu tom de voz suave e contido era capaz de me fazer gozar. Quando ele me tocava, eu me desmanchava inteira.

Fui até a cozinha fazer o café.

Ele resmungou alguma coisa bem baixinho e me alcançou facilmente com suas passadas largas. Quando percebi, estava espremida contra a parede por um metro e noventa centímetros de pura gostosura masculina.

“Você sabe o que acontece quando tenta fugir, meu anjo.” Gideon mordeu meu lábio inferior e aplacou a dor acariciando com a língua. “Eu pego você.”

Senti meu corpo relaxar e se render alegremente ao prazer da proximidade daquele aperto. Eu o desejava o tempo todo, e com tanto ardor que até doía. Era luxurioso, mas havia algo mais. Alguma coisa delicada e profunda fazia com que o desejo que Gideon sentia por mim não funcionasse como um gatilho para sentimentos desagradáveis que poderiam vir à tona com outros homens. Se outra pessoa tentasse me subjugar com o peso do corpo daquele jeito, eu teria um ataque. Mas isso nunca foi problema com Gideon. Ele sabia do que eu precisava e o quanto era capaz de suportar.

Ele abriu um sorriso que fez meu coração parar de bater por um momento.

Diante daquele rosto maravilhoso, emoldurado por cabelos negros e sedosos, senti minhas pernas fraquejarem. Ele era elegante e contido. O único toque de ousadia em sua aparência eram os cabelos.

Gideon esfregou seu nariz contra o meu. “Você não pode sorrir para mim daquele jeito e me dar as costas. No que estava pensando enquanto eu falava ao telefone?”

Abri um sorrisinho malicioso. “Em como você é lindo. Penso nisso o tempo todo. Ainda não me acostumei.”

Ele agarrou a parte de trás de uma das minhas coxas e me puxou para mais perto, provocando-me com o balanço irresistível de seus quadris contra os meus. Gideon era absurdamente bom de cama. E sabia muito bem disso. “Não vou deixar você se acostumar.”

“Mesmo?” O tesão já percorria minhas veias e meu corpo ansiava pelo toque de Gideon. “Não acredito que você queria outra mulher obcecada no seu pé o tempo todo.”

“O que eu quero”, ele sussurrou, agarrando meu queixo e acariciando meu lábio inferior com o polegar, “é que você se mantenha ocupada demais pensando em mim para poder pensar em qualquer outra pessoa.”

Soltei um suspiro lento e trêmulo. Estava absolutamente entregue ao olhar quente em seu rosto, ao tom provocador de sua voz, ao calor de seu corpo e ao gosto divino de sua pele. Ele era minha droga, um vício que eu não tinha a menor vontade de largar.

“Gideon”, murmurei, deliciada.

Soltando um gemido suave, Gideon cobriu minha boca com a dele, e meus pensamentos se esvaíram em um beijo intenso e luxurioso... um beijo que conseguiu desviar minha atenção da insegurança que Gideon havia acabado de despertar.

Enfiei os dedos em seus cabelos para que ficasse imóvel e retribuí o beijo, acariciando e atacando sua língua com a minha. Não fazia muito tempo que éramos um casal. Menos de um mês. Para piorar, nenhum dos dois tinha experiência em um relacionamento como aquele — uma relação em que nenhuma das partes precisava se preocupar em fingir que não era profundamente traumatizada.

Seus braços se juntaram em torno de mim e me apertaram possessivamente. “Adoraria passar o fim de semana com você em uma ilha no sul da Flórida... sem roupa.”

“Humm... Parece ótimo.” Mais do que ótimo. Por mais que eu gostasse de ver Gideon de terno, preferia mil vezes vê-lo sem nada. Não comentei que não estaria disponível aquele fim de semana...

“Mas tenho negócios a tratar este fim de semana”, ele resmungou sem desgrudar os lábios dos meus.

“Negócios que você deixou de lado para ficar comigo?” Gideon saía do trabalho mais cedo durante a semana para ficarmos mais tempo juntos, e eu sabia que isso não era nada fácil para ele. Minha mãe estava em seu terceiro casamento, e todos os maridos dela eram homens ricos e poderosos, bem parecidos entre si. Eu tinha consciência de que o preço da ambição eram horas e horas de dedicação.

“Pago um salário muito generoso a algumas pessoas para poder ficar com você.”

Uma boa resposta, mas, ao notar uma pontinha de irritação se insinuar em seus olhos, resolvi mudar de assunto. “Obrigada. Agora vamos tomar café antes que a gente se atrase.”

Gideon percorreu meu lábio inferior com a língua e então me soltou. “Quero decolar amanhã às oito da noite. Não precisa levar muita coisa. O Arizona é quente e seco.”

“Quê?” Fiquei perplexa. Ele virou as costas e desapareceu dentro do escritório. “Você tem negócios a tratar no Arizona?”

“Infelizmente.”

Opa... Em vez de perder a chance de tomar café, preferi adiar a discussão e ir até a cozinha. O apartamento de Gideon era enorme, um exemplo da arquitetura do pré-guerra, com janelas arqueadas. O som dos meus saltos batendo no piso reluzente de maneira nobre era abafado pelos tapetes Aubusson. Decorado com peças de madeira escura e tecidos naturais, o tom sóbrio daquele espaço luxuoso só era quebrado pelo brilho colorido de peças ornamentadas com pedras preciosas. Por mais que se tratasse de um ambiente luxuosíssimo, ainda assim era um lugar aconchegante e acolhedor, o local perfeito para relaxar e ser mimada.

Quando cheguei à cozinha, fui logo pondo um copo descartável na cafeteira. Gideon apareceu com o paletó estendido no braço e o celular na mão. Fiz um café para ele e fui até a geladeira pegar o leite.

“Acho que dei sorte, no fim das contas.” Eu o encarei e o lembrei de que tinha questões a resolver com meu colega de quarto. “Preciso conversar com Cary neste fim de semana.”

Gideon pôs o telefone no bolso de dentro do paletó e o pendurou em um dos banquinhos do balcão. “Você vai comigo, Eva.”

Soltando um suspiro, despejei o leite no café. “Pra fazer o quê? Ficar lá deitada sem roupa, esperando você voltar do trabalho pra me comer?”

Ele me encarou e começou a beber o café fumegante com uma tranquilidade calculada. “Vamos brigar por causa disso?”

“Você vai dar uma de cabeça-dura? Já conversamos sobre isso. Não posso deixar Cary sozinho depois do que aconteceu ontem à noite.” A multidão engalfinhada que encontrei na minha sala na noite anterior dava um novo significado à palavra “suruba”.

Pus o leite de volta na geladeira e experimentei a sensação de ser inexoravelmente submetida à força de vontade de Gideon. Era assim desde o começo. Quando queria, ele era capaz de me fazer sentir fisicamente suas exigências. E era difícil demais ignorar aquela parte de mim que só queria fazer o que ele mandasse. “Você vai cuidar dos seus negócios e eu vou cuidar do meu amigo. Depois vamos cuidar de nós dois.”

“Só vou voltar no domingo à noite, Eva.”

Ah... Senti um frio na barriga ao ouvir que ficaríamos tanto tempo longe um do outro. A maior parte dos casais não passa todo o tempo livre juntos, mas éramos uma exceção. Tínhamos traumas, neuroses e uma necessidade da companhia do outro que exigiam contato constante para nos manter em um estado mental saudável. Eu detestava ficar longe de Gideon. Quase nunca passava mais de duas horas sem pensar nele.

“Você também não gostou nadinha da ideia”, ele disse baixinho, mostrando que sabia exatamente o que eu estava pensando. “Quando domingo chegar vamos estar desesperados.”

Soprei meu café com leite e arrisquei um gole. A perspectiva de passar um fim de semana inteiro sem ele me perturbava. Para piorar, gostava menos ainda da ideia de que ele passasse todo esse tempo sem mim. Gideon tinha um mundo de escolhas e possibilidades à sua disposição, mulheres bem menos perturbadas e complicadas.

Apesar de tudo, consegui argumentar mais um pouco: “Isso não é exatamente saudável, Gideon”.

“Quem disse? Ninguém sabe o que é passar pelo que nós passamos.”

Eu era obrigada a concordar.

“Precisamos trabalhar”, eu disse, sabendo que essa indecisão nos deixaria nervosos o dia inteiro. Mais tarde poderíamos resolver a questão, mas naquele momento estávamos diante de um impasse.

Apoiado contra o balcão, ele cruzou os pés em uma postura teimosa. “Então precisamos que você aceite ir comigo.”

“Gideon.” Comecei a bater o pé. “Não posso abrir mão da minha vida por sua causa. Se eu for obediente e compreensiva o tempo todo, você vai ficar de saco cheio rapidinho. Até eu vou ficar de saco cheio. Não custa nada a gente passar dois dias resolvendo outras questões, mesmo que seja contra a nossa vontade.”

Ele me olhou bem nos olhos. “Você não consegue ser obediente e compreensiva nem metade do tempo.”

“Olha só quem fala.”

Gideon se endireitou, exibindo sua sexualidade pulsante e me arrebatando com toda a sua intensidade. Ele era volátil e caprichoso — assim como eu. “Você tem aparecido bastante ultimamente, Eva. Não é segredo pra ninguém que está em Nova York. Leve Cary junto se for preciso. Vocês podem quebrar o pau enquanto resolvo o que tenho que resolver antes de te comer.”

“Ah.” Apesar de valorizar sua tentativa de melhorar o clima, percebi que sua intenção era me mantar a salvo de alguém... Nathan. Meu irmão de criação. O pesadelo do meu passado, que Gideon parecia temer que reaparecesse no presente. Eu relutava em aceitar a ideia de que ele não estava totalmente errado. O escudo do anonimato, que me protegera durante anos, fora esfacelado quando nosso relacionamento veio a público.

Deus... não era o momento para conversar sobre aquilo, e eu sabia que Gideon seria irredutível nesse ponto. Ele era um homem que sabia impor limites, enfrentava seus concorrentes de maneira impiedosa e jamais deixaria que alguém me prejudicasse. Eu era seu porto seguro, seu bem mais valioso e imprescindível.

Gideon olhou no relógio. “Está na hora, meu anjo.”

Ele apanhou o paletó, fez sinal para que eu atravessasse sua luxuosa sala, onde estava a sacola com meu tênis de caminhada e outros artigos de primeira necessidade. Poucos instantes depois, tendo descido até o térreo em um elevador particular, estávamos no banco de trás do Bentley preto.

“Oi, Angus.” Cumprimentei o motorista, que bateu com os dedos na aba de seu quepe de chofer à moda antiga.

“Bom dia, senhorita Tramell”, ele respondeu com um sorriso. Era um homem de certa idade, com uma boa quantidade de fios brancos na cabeleira ruiva. Eu gostava dele por inúmeros motivos, e um dos principais era que Angus trabalhava para Gideon desde a época do colégio e gostava dele de verdade.

Com uma rápida olhada no Rolex, presente da minha mãe e do meu padrasto, confirmei que chegaríamos a tempo... se não ficássemos presos no trânsito. Justamente quando pensei nisso, Angus adentrou o mar de táxis e carros que inundavam a cidade. Depois do silêncio carregado de tensão no apartamento de Gideon, o ruído de Manhattan funcionou como uma dose de cafeína para me despertar. O alarido das buzinas e o som do choque dos pneus contra as bocas de lobo serviram para me revigorar. Pedestres apressados percorriam ambos os lados da rua, enquanto os prédios se elevavam ambiciosamente na direção do céu, mantendo-nos na sombra apesar do sol cada vez mais alto.

Eu amava Nova York. Todos os dias precisava fazer força para me acostumar à cidade, para acreditar que estava ali.

Ajeitei-me no assento de couro e procurei a mão de Gideon, apertando-a bem forte. “Você acharia melhor se eu e Cary saíssemos da cidade no fim de semana? E se fôssemos para Las Vegas?”

Gideon estreitou os olhos. “Você acha que tenho alguma coisa contra Cary? É por isso que não quer ir com ele para o Arizona?”

“Quê? Não. Acho que não.” Eu me remexi mais um pouco no assento antes de encará-lo. “É que às vezes demora um bocado pra Cary começar a se abrir.”

“Você acha que não?”, ele repetiu, ignorando todo o resto da resposta.

“Talvez ele pense que não pode mais contar comigo, porque passo o tempo todo com você”, esclareci, segurando o copo de café com as duas mãos enquanto passávamos por um trecho esburacado. “Você vai ter que aprender a superar esse ciúme de Cary. Quando digo que ele é um irmão pra mim, Gideon, estou falando sério. Você não precisa gostar dele, mas tem que aceitar que faz parte da minha vida.”

“É isso que você fala para ele sobre mim?”

“Eu não falo nada. Ele sabe. Estou tentando fazer um acordo aqui...”

“Eu não faço acordos.”

Minhas sobrancelhas se ergueram. “Nos negócios tenho certeza que não. Mas num relacionamento, Gideon, é preciso saber quando ceder e...”

Ele me interrompeu com uma declaração enfática: “No meu avião, no meu hotel, e você só pode sair escoltada por uma equipe de seguranças”.

O modo repentino e um tanto relutante como ele concordou comigo me deixou surpresa e sem ter o que dizer por um instante. Foi tempo suficiente para ele erguer as sobrancelhas e me encarar com seus olhos azuis penetrantes como quem diz “É pegar ou largar”.

“Você não acha meio exagerado?”, argumentei. “Cary vai estar comigo.”

“Você tem que entender que não confio mais nele para garantir sua segurança depois do que aconteceu ontem à noite.” A postura de Gideon enquanto bebia o café deixava bem claro que estava tudo decidido. Ele havia me proposto a alternativa que lhe parecia mais razoável.

Eu até poderia me incomodar com esse tipo de imposição, se não entendesse que sua motivação principal era cuidar de mim. Meu passado era habitado por fantasmas terríveis, e meu namoro com Gideon me pôs em uma posição capaz de levar Nathan Barker a se sentir tentado a bater na minha porta.

Além disso, a necessidade de controlar tudo a seu redor fazia parte do temperamento de Gideon. Era algo que vinha com o pacote, de que ele não abria mão.

“Certo”, concordei. “Qual é o seu hotel?”

“Tenho mais de um. Pode escolher.” Ele se virou e olhou pela janela. “Scott vai te mandar a lista por e-mail. Quando decidir, é só avisar que ele cuida de tudo. A gente pode ir e voltar no mesmo avião.”

Encostando os ombros no assento, bebi mais um gole do café e percebi que Gideon estava com o punho fechado. No reflexo do vidro escuro do carro, seu rosto parecia impassível, mas seu mau humor era palpável.

“Obrigada”, murmurei.

“Não agradeça. Não estou nada feliz com isso, Eva.” Um músculo se contraiu em seu maxilar. “Cary pisou na bola e fui eu que perdi o fim de semana com você.”

Não gostei de ouvir que ele estava chateado, então apanhei o copo de café de sua mão e pus os dois no porta-copos. Depois pulei no colo dele e joguei meus braços sobre seus ombros. “Fico feliz que você tenha cedido, Gideon. Significa muito para mim.”

Ele me encarou com um olhar de filhotinho. “Eu sabia que você ia acabar me deixando maluco assim que pus os olhos em você.”

Dei risada, lembrando-me de quando nos conhecemos. “Caindo de bunda no saguão do prédio?”

“Antes disso. Lá fora.”

“Lá fora onde?”, perguntei, franzindo o rosto.

“Na calçada.” Gideon agarrou meus quadris, apertando-me da maneira possessiva e dominante que me fazia morrer de tesão por ele. “Eu estava saindo pra uma reunião. Se saísse um minuto mais cedo não teria te visto. Tinha acabado de entrar no carro quando você virou a esquina.”

Lembrei-me do Bentley estacionado no meio-fio naquele dia. Eu estava impressionada demais com o prédio para notá-lo quando cheguei, mas vi que estava lá quando saí.

“Você me abalou à primeira vista”, ele comentou com a voz um pouco rouca. “Eu não conseguia desviar os olhos. Queria ter você naquele momento. Era um desejo excessivo. Quase violento.”

Como eu nunca soube que nosso primeiro encontro envolvia muito mais do que eu imaginava? Pensei que tivéssemos esbarrado um no outro por acidente. Mas Gideon já estava indo embora... o que significava que tinha voltado só para me ver.

“Você parou bem ao lado do carro”, ele continuou, “e jogou a cabeça para cima. Estava olhando para o prédio, mas imaginei você de joelhos na minha frente, com os olhos voltados para mim.”

Seu tom de voz sussurrado fez com que eu começasse a me contorcer em seu colo. “Olhando para você como?”, perguntei baixinho, hipnotizada pelo calor de seu olhar.

“Com tesão. Um pouco impressionada... um pouco intimidada.” Ele agarrou minha bunda e me puxou mais para perto. “Eu não tinha como deixar de ir atrás de você lá dentro. E lá te encontrei, bem do jeito que eu queria, ajoelhada na minha frente. Naquele momento, pensei no monte de coisas que faria quando conseguisse deixar você peladinha.”

Engoli em seco, lembrando que minha reação não havia sido muito diferente. “Quando vi você pela primeira vez, só consegui pensar em sexo. Sexo selvagem, de rasgar os lençóis.”

“Eu percebi.” Ele acariciava minhas costas com ambas as mãos. “E percebi também o jeito como me olhou. Você viu quem eu era... o que havia lá dentro. Conseguiu enxergar através de mim.”

E foi isso que me fez cair para trás — literalmente. Olhei bem em seus olhos e percebi a força que ele fazia para se reprimir, para não deixar transparecer as atribulações que havia dentro de si. O que vi ali foi sede de poder e de controle. E, no fundo, sabia que cedo ou tarde ele tomaria posse de mim. Foi um alívio descobrir que sentia a mesma coisa.

Gideon me puxou pelos ombros até nossas testas se tocarem. “Ninguém nunca tinha me visto antes, Eva. Você foi a única.”

Senti um nó na garganta. Em muitos sentidos, Gideon era um sujeito durão, mas sabia ser meigo comigo. E de uma maneira quase infantil, o que eu adorava, porque era uma coisa pura e espontânea. Se a pessoa não conseguia enxergar nada além de seu rosto bonito e sua conta bancária recheada, então não merecia tê-lo. “Eu nem me dei conta. Você parecia tão... seguro de si. Nem imaginei que tivesse causado algum efeito em você.”

“Seguro?”, ele ironizou. “Eu estava morrendo de tesão. E continuo assim até agora.”

“Nossa. Obrigada.”

“Você se tornou indispensável pra mim”, ele sussurrou. “Agora não suporto a ideia de ficar dois dias sem você.”

Segurei seu queixo, eu o beijei com carinho, quase num pedido de desculpas. “Eu também te amo”, murmurei com a boca colada à dele. “Não suporto ficar longe de você.”

Ele retribuiu o beijo com paixão, devorando-me, mas ainda assim me segurando contra ele de uma forma gentil e respeitosa. Como se eu fosse frágil. Quando o beijo acabou, estávamos ambos ofegantes.

“Eu nem fazia seu tipo”, comentei, como uma provocação para aliviar a tensão antes de começarmos a trabalhar. A preferência de Gideon pelas morenas era pública e notória.

Senti que o Bentley estava estacionando. Angus saiu do carro para nos dar mais privacidade, deixando o motor e o ar-condicionado ligados. Olhei pela janela e vi o prédio Crossfire pairando acima de nós.

“Sobre isso...” Gideon recostou a cabeça no assento e respirou fundo. “Corinne ficou surpresa ao ver você. Não era o que ela esperava.”

Cerrei os dentes ao ouvir o nome da ex-noiva de Gideon. Mesmo sabendo que sua relação tinha mais a ver com amizade e companheirismo do que com amor, o ciúme ainda causava estragos em mim. Era um dos meus defeitos mais evidentes. “Porque sou loira?”

“Porque... você não se parece em nada com ela.”

Perdi o fôlego. Jamais tinha me dado conta de que Corinne era o padrão de mulher para ele. Eu sabia que Magdalene Perez — uma das amigas de Gideon que gostariam de ser algo mais — tinha deixado o cabelo crescer só para ficar parecida com Corinne, mas ainda não tinha notado a complexidade daquilo tudo. Meu Deus... Se era verdade, Corinne possuía um poder enorme sobre Gideon, muito mais do que eu era capaz de suportar. Senti meu coração disparar e meu estômago revirar. Sentia um ódio irracional por Corinne. Detestava o fato de Gideon ter alguma intimidade com ela. Abominava todas as mulheres que haviam sentido seu toque... seu desejo... seu corpo sensacional.

Comecei a sair de cima dele.

“Eva.” Gideon me manteve junto a ele, apertando com força minhas coxas. “Não sei se ela está certa.”

Olhei para o lugar onde ele estava me apertando, e a visão do anel que tinha dado em sua mão direita — o sinal de nosso compromisso — me acalmou, assim como a expressão confusa em seu rosto quando o encarei. “Ah, não?”

“Se foi isso mesmo, foi uma coisa inconsciente. Eu não estava procurando outras mulheres como ela. Não estava procurando nada, na verdade, até encontrar você.”

Senti meu corpo todo se aliviar, e minhas mãos desceram pela lapela de seu paletó. Talvez ele não estivesse mesmo procurando por ela e, ainda que estivesse, eu não poderia ser mais diferente de Corinne, tanto em termos de aparência como de temperamento. Eu era uma novidade. Uma mulher diferente de todas as outras, em todos os sentidos. Como eu queria que isso bastasse para aplacar meu ciúme...

“Talvez fosse mais um padrão do que uma preferência.” Alisei a ruga que havia se formado em sua testa com a ponta do dedo. “Converse sobre isso com o doutor Petersen na consulta de hoje à noite. Eu queria ter mais a dizer depois de tantos anos de terapia, mas não tenho. Existe um monte de coisas sem explicações entre nós, não é mesmo? Ainda não faço ideia do que foi que você viu em mim.”

“O grande mistério é o que você viu em mim, meu anjo”, ele respondeu em voz baixa, amenizando a expressão do rosto. “Você sabe quem eu sou e me quer tanto quanto eu quero você. Todas as noites vou dormir com medo de que você não esteja lá quando eu acordar. Ou que assuste você... com os meus sonhos...”

“Não, Gideon.” Meu Deus. Aquilo era de cortar o coração. Acabava comigo.

“Posso até não falar dos meus sentimentos da mesma maneira que você, mas sou seu. Você sabe disso.”

“Sim, eu sei que você me ama.” Loucamente. Absurdamente. Obsessivamente. Assim como eu.

“Sou louco por você, Eva.” Com a cabeça inclinada para trás, ele me puxou para me dar o mais doce dos beijos, seus lábios se movendo suavemente junto aos meus. “Eu mataria por você”, ele sussurrou. “Abriria mão de tudo o que tenho... mas não desistiria de você. Esses dois dias são o limite. Não me peça mais que isso. Não consigo ceder mais.”

Eu sabia qual era o peso exato daquelas palavras. Sua riqueza era seu escudo, sua possibilidade de exercer o poder e o controle que havia perdido em algum momento da vida. Gideon tinha sido violado e brutalizado, assim como eu. O fato de preferir perder sua paz de espírito a abrir mão de mim significava mais do que qualquer declaração de amor.

“Só preciso de dois dias, garotão, e vou te recompensar muito bem por eles.”

O brilho afetuoso de seu olhar foi substituído pelo desejo carnal. “Ah, é? Está querendo compensar sua ausência com sexo, meu anjo?”

“Sim”, admiti sem a menor vergonha. “Muito sexo. Parece funcionar muito bem com você.”

Ele abriu um sorriso, mas seu olhar penetrante me fez perder o fôlego. Aquele olhar me fazia lembrar que Gideon não era um homem que pudesse ser manipulado ou domado — como se fosse possível esquecer.

“Ah, Eva”, ele sussurrou, ajeitando-se no assento com a confiança indiferente de um grande felino que tinha conseguido atrair um ratinho para sua toca.

Um tremor delicioso se espalhou por meu corpo. Quando se tratava de Gideon Cross, o que eu mais queria no mundo era ser devorada.

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