Sylvia Day
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afterburn aftershock brazil sylvia day
Apr 7, 2015  •  Editora Paralela  •  9788565530903

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Havia uma leve brisa de outono na manhã em que entrei no arranha-céu de vidro espelhado no centro de Manhattan, deixando para trás o barulho das buzinas e dos pedestres para penetrar um silêncio refrescante. Meus saltos batiam no mármore escuro do vasto saguão, no ritmo acelerado de meu coração. Com as mãos úmidas de suor, deslizei minha identidade pelo balcão da recepção. Recebi o crachá de visitante e fui em direção ao elevador, cada vez mais nervosa. Você já desejou tanto alguma coisa que simplesmente não era capaz de imaginar como seria se não a conseguisse? Eu tinha dois motivos na vida para me sentir assim: o cara por quem tinha me apaixonado e o cargo de assistente administrativa para o qual ia ser entrevistada. O cara tinha se revelado um erro; o emprego poderia mudar minha vida de maneira inacreditável. Eu não podia ser menos que perfeita naquela entrevista. Tinha a sensação de que trabalhar como assistente de Lei Yeung era justamente o que precisava para abrir minhas asas e voar alto. Apesar do meu encorajamento mental, perdi momentaneamente o fôlego ao sair do elevador no décimo andar e deparar com a entrada de vidro escuro da Savor. O nome da empresa estava gravado em uma fonte metálica feminina sobre as portas duplas, desafiando-me a sonhar alto e a aproveitar cada momento ali. Enquanto esperava para entrar, examinei a fileira de jovens bem vestidas aguardando na recepção. Diferente de mim, não usavam roupas da coleção passada. E eu duvidava que alguma delas tivesse se desdobrado em três empregos simultâneos para pagar a faculdade. Eu estava em desvantagem em praticamente todos os aspectos, mas já sabia que seria assim, e isso não me intimidava… muito. A porta automática abriu e, ao entrar, reparei nas paredes cor de café com leite, repletas de fotografias de grandes chefs e restaurantes da moda. Havia um leve aroma de açúcar no ar, um cheiro reconfortante da minha infância. Mas nem assim eu conseguia relaxar. Respirei fundo e me apresentei à recepcionista, uma jovem negra e bonita, dona de um sorriso gentil. Afastei-me discretamente, à procura de um trecho desocupado de parede no qual encostar. Eu tinha achado o horário da entrevista — para a qual chegara trinta minutos adiantada — estranha, mas logo me dei conta de que cada candidato tinha uma conversa rápida de cinco minutos e era dispensado com pontualidade britânica. Minha pele enrubesceu de leve e senti que estava suando frio quando chamaram meu nome. Afastei-me da parede com tanta pressa que titubeei sobre os saltos, a falta de jeito refletindo minha insegurança. Acompanhei um rapaz atraente ao longo de um corredor até um escritório de canto com uma recepção vazia, seguida de outra porta que levava à sala de Lei Yeung. O rapaz abriu a porta para mim com um sorriso. “Boa sorte.” “Obrigada.” Ao entrar, a primeira coisa que notei foi a decoração moderna e despojada, então reparei na mulher sentada atrás de uma mesa de madeira tão grande que a fazia parecer minúscula. Se não fosse pelo tom vivo de vermelho em seus óculos, que combinava perfeitamente com o batom nos lábios cheios, ela talvez tivesse sido eclipsada pela vastidão do ambiente, que tinha uma vista estonteante da paisagem urbana de Manhattan. Parei um instante para registrar a mulher, admirando a maestria com que uma mecha de cabelo grisalho havia sido disposta no penteado. Ela era esguia, com um pescoço gracioso e braços compridos. Quando ergueu os olhos do currículo para me avaliar, senti-me exposta e vulnerável. Lei Yeung tirou os óculos e recostou-se na cadeira. “Sente, Gianna.” Atravessei o carpete creme e escolhi uma das duas cadeiras de couro e metal cromado diante da mesa. “Bom dia”, cumprimentei, ouvindo, tarde demais, o sotaque do Brooklyn que estava disposta a disfarçar a todo custo. Ela não aparentou notar. “Fale sobre você.” Limpei a garganta. “Bem, me formei na Universidade de Nevada, em Las Vegas…” “Acabei de ler isso no seu currículo.” Ela amenizou o tom das palavras com um ligeiro sorriso. “Fale alguma coisa sobre você que ainda não sei. Por que a indústria de restaurantes? Sessenta por cento dos novos estabelecimentos fracassam em cinco anos. Tenho certeza de que sabe disso.” “Não o nosso. Minha família tem um restaurante em Little Italy há três gerações”, respondi, cheia de orgulho. “E por que você não trabalha lá?” “Porque você não trabalha lá.” Engoli em seco. Uma resposta pessoal demais. Lei Yeung não pareceu se incomodar, mas meu excesso de sinceridade me abalou. “Quer dizer, lá nós não temos ninguém com seu dom”, acrescentei depressa. “Nós…?” “Sim.” Fiz uma pausa para me recompor. “Tenho três irmãos. Seria difícil dividir a gerência do Rossi’s quando meu pai se aposentar, e nem é o que eles querem. O mais velho vai ficar com o restaurante e os outros dois… bem, cada um quer ter seu próprio Rossi’s.” “E sua contribuição é um diploma em gerenciamento de restaurantes e um coração grande.” “Quero aprender mais sobre o negócio para ajudar meus irmãos a realizar os sonhos deles. E outras pessoas também.” Lei Yeung assentiu e pegou os óculos novamente. “Muito obrigada por ter vindo, Gianna.” E assim, sem mais nem menos, fui dispensada. Sabia que não tinha conseguido o emprego. Não tinha dito o que ela esperava escutar do escolhido. Fiquei de pé, as ideias de como dar a volta por cima na entrevista fervilhando na minha cabeça. “Sra. Yeung, eu realmente quero este emprego. Trabalho duro. Nunca falto. Sou proativa e penso no futuro. Em pouco tempo, vou aprender a antecipar as coisas de que precisa antes que precise delas. Não vai se decepcionar se me contratar.” Lei me fitou. “Tenho certeza disso. Você teve vários empregos e suas boas notas na faculdade não caíram. É inteligente, determinada e não tem medo de trabalha duro. Estou certa de que seria excelente. Mas acho que não sou a chefe certa para você.” “Não estou entendendo.” Meu estômago revirou com a notícia de que meu emprego dos sonhos tinha me escapado por entre os dedos, e a decepção doeu. “Não se preocupe”, ela disse, simpática. “Acredite em mim. Há uma centena de restaurantes em Nova York que podem oferecer a você o que procura.” Ergui a cabeça. Eu costumava me orgulhar da minha aparência, da minha família e das minhas raízes. Detestava o fato de que agora colocava esse orgulho em dúvida com frequência. Num impulso, resolvi dizer por que queria tanto trabalhar com ela. “Temos muito em comum, sra. Yeung. Ian Pembry subestimou você, não é verdade?” Um fogo repentino se acendeu em seus olhos diante da menção inesperada do homem por quem fora traída, mas ela permaneceu em silêncio. A essa altura, eu não tinha nada a perder. “Um homem me subestimou também. Só quero fazer o mesmo que você: provar que todo mundo estava errado.” Ela inclinou a cabeça de lado. “Espero que consiga.” Percebendo que não havia mais nada que pudesse fazer, agradeci e saí da sala com o máximo de dignidade possível. Sem sombra de dúvida, tinha sido uma das piores segundas-feiras da minha vida. “Escute o que estou dizendo, ela é uma idiota”, tornou a dizer Angelo. “Você teve foi sorte de não conseguir aquele emprego.” Eu era a caçula da família. Angelo era o mais novo dos meus três irmãos. A ira com que me defendia me fez sorrir, apesar do meu estado. “Ele tem razão”, disse Nico. O mais velho — e o mais brincalhão — deu um chega pra lá em Angelo e colocou um prato diante de mim com um floreio. Eu estava no bar, já que o Rossi’s estava lotado como sempre. Os fregueses da noite eram barulhentos, e muitos deles eram conhecidos da casa. Vez por outra aparecia uma celebridade à paisana para comer em paz. Essa mistura era um sinal evidente da fama do serviço acolhedor e da comida excelente do Rossi’s. Angelo devolveu o empurrão e fez uma careta. “Sempre tenho razão.” “Até parece!”, desdenhou Vincent pela janela da cozinha, deslizando dois pratos fumegantes sobre o balcão e arrancando as comandas correspondentes. “Só quando você repete o que eu digo.” Tive que rir daquilo. Então senti a mão de alguém tocar minha cintura um segundo antes de perceber o perfume Elizabeth Arden predileto da minha mãe. Ela me deu um beijo. “Que bom ver você sorrindo. Tudo na vida acontece…” “… por um motivo”, completei. “Eu sei. Mas é um saco.” Eu era a única da família que havia feito faculdade. Tinha sido um esforço coletivo, com participação dos meus irmãos. E era impossível não sentir como se tivesse decepcionado todo mundo. Claro que havia centenas de restaurateurs em Nova York, mas Lei Yeung não era apenas capaz de transformar chefs desconhecidos em marcas, ela era fora de série. Lei Yeung sempre falava sobre a presença das mulheres no mundo dos negócios e havia sido convidada para diversos programas da manhã. Era filha de imigrantes e tinha batalhado e estudado, tornando-se um sucesso mesmo tendo sido traída por seu mentor. Trabalhar para ela era tudo o que eu queria. Ou era disso que eu tinha me convencido. “Coma seu fettuccine antes que esfrie”, disse minha mãe, e se afastou para receber novos fregueses. Enrolei o macarrão no garfo. O molho Alfredo cremoso ficou pingando enquanto a observava. Muitos clientes também olhavam para ela. Mona Rossi estava perto da casa dos sessenta, mas jamais se adivinharia isso pela sua aparência. Era linda e sensual de uma maneira exuberante. Os cabelos ruivos eram volumosos e emolduravam um rosto dotado de uma simetria clássica, com lábios cheios e olhos como duas jabuticabas. Era escultural, tinha curvas generosas e um gosto por joias de ouro. Homens e mulheres a adoravam. Minha mãe era segura de si e descontraída. Poucos desconfiavam do trabalho que meus irmãos tinham dado quando jovens. Mas agora eles estavam bem treinados. Respirando fundo, procurei absorver a atmosfera reconfortante à minha volta: os sons queridos de gente se divertindo, o cheiro de dar água na boca da comida cuidadosamente preparada, o tinir de talheres nas louças e copos se chocando em brindes. Eu queria mais da vida, o que às vezes me fazia esquecer quanta coisa já possuía. Nico voltou e olhou para mim. “Tinto ou branco?”, perguntou, colocando a mão sobre a minha afetuosamente. Ele era um dos favoritos da clientela, especialmente entre as mulheres, e ficava no bar. Era moreno e bonito, tinha cabelos bagunçados e um sorriso malicioso. Um paquerador convicto, tinha fã-clube próprio. As mulheres iam ao bar em busca de seus ótimos drinques e de seu papo sedutor. “Que tal uma champanhe?” Lei Yeung sentou-se elegantemente no banco ao meu lado, que tinha acabado de ser liberado. Pisquei, incrédula. Ela sorriu para mim. Usava uma calça jeans e uma blusa rosa de seda, e parecia bem mais jovem do que na entrevista. Seus cabelos estavam soltos, e o rosto, sem maquiagem. “Vi muitas avaliações entusiasmadas deste lugar na internet.” “É a melhor comida italiana daqui”, respondi, sentindo o coração acelerar. “Muitos dizem que este lugar ficou ainda melhor nos últimos anos. Foi quando você começou a colocar em prática o que estava aprendendo?” Nico colocou duas taças altas à nossa frente e serviu champanhe até a metade. “É isso mesmo”, ele disse, entrando na conversa. Lei segurou sua taça e acariciou-a com os dedos. Seu olhar cruzou com o meu. Nico, que sabia muito bem a hora de desaparecer, foi para a outra ponta do bar. “Voltando ao assunto…”, ela disse. Comecei a me curvar, com medo do que viria, mas logo me endireitei no banco. Lei Yeung não teria se deslocado até o Rossi’s só para me dar uma lição de moral. “Ian me subestimou, sim, mas ele não se aproveitou de mim. Se eu dissesse isso exageraria sua participação no caso. Eu deixei a porta aberta, e ele passou por ela.” Fiz que sim com a cabeça. As circunstâncias do rompimento dos dois eram desconhecidas, mas eu havia deduzido algumas coisas a partir das reportagens nas revistas especializadas do ramo, e preenchido as lacunas com informações das colunas de fofoca e blogs. Juntos, eles haviam erguido um império culinário, transformado chefs em celebridades, montado várias cadeias de restaurantes e uma linha de livros de receitas e utensílios de cozinha a preços acessíveis que vendiam aos milhões. Foi então que Pembry anunciou o lançamento de uma nova cadeia de restaurantes financiada por atores e atrizes famosos — da qual Lei não fazia parte. “Ele me ensinou muito”, prosseguiu ela. “E cheguei à conclusão de que aprendeu tanto quanto eu.” Lei fez uma pausa, pensativa. “Estou ficando acostumada demais comigo mesma e com a maneira como faço as coisas. Preciso de outro ponto de vista. Quero me alimentar da vontade de vencer de outra pessoa.” “Você quer uma discípula.” “Exatamente.” Sua boca se curvou num sorriso. “Não havia percebido isso até falar com você. Eu sabia que estava em busca de algo, mas não sabia o que era.” Eu estava eufórica, mas mantive o tom profissional. Girei o banco para encará-la. “Estou dentro, se você quiser.” “Esqueça o horário comercial”, avisou ela. “Não é algo que se faça das nove às seis. Vou precisar de você nos fins de semana e talvez telefone no meio da madrugada. Trabalho o tempo todo.” “Não vou achar ruim.” “Eu vou.” Angelo se aproximou por trás de nós. Meus irmãos tinham deduzido quem ela era, e eles gostavam de se intrometer. “Preciso ver minha irmã de vez em quando.” Dei uma cotovelada nele. Eu, meus três irmãos e a esposa de Angelo, Denise, dividíamos um apartamento grande mas precário, no Brooklyn. A maior parte do tempo reclamávamos que nos víamos demais. Lei estendeu a mão e se apresentou a Nico e Angelo, depois à minha mãe, que havia chegado para ver o que estava acontecendo. Meu pai e Vincent gritaram da janela da cozinha. Alguém pôs diante de Lei um cardápio e uma cesta de pão fresquinho e azeite importado de um pequeno produtor na Toscana. “A panna cotta é boa?”, perguntou Lei. “A melhor”, respondi. “Você já jantou?” “Ainda não. Lição número um: a vida é curta. Não adie as coisas boas.” Mordi o lábio inferior para conter um sorriso largo. “Isso significa que o emprego é meu?” Ela ergueu a taça com um movimento afirmativo da cabeça. “Saúde.”
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