Sylvia Day
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Apr 5, 2016  •  Paralela  •  9788584390175

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Capítulo 1

Nova York era a cidade que nunca dormia; não sentia nem sono. Meu apartamento no Upper West Side tinha o nível de isolamento acústico esperado para um empreendimento de altíssimo padrão, mas mesmo assim o barulho do lado de fora entrava pelas janelas — o passar ritmado dos pneus sobre o asfalto gasto, os freios com anos de uso, as buzinas incessantes dos táxis.

Quando saí do café de esquina para a sempre movimentada Broadway, o burburinho da cidade tomou conta de mim. Como conseguiria viver sem a cacofonia de Manhattan?

Como conseguiria viver sem ele?

Gideon Cross.

Segurei seu rosto e senti a receptividade ao meu toque. Essa demonstração de carinho e vulnerabilidade me deixou tocada. Algumas horas antes, cheguei a pensar que Gideon nunca mudaria, que eu precisaria ceder demais para compartilhar minha vida com ele. Pouco tempo mais tarde, admirava sua coragem, e duvidava da minha.

Estava exigindo mais dele do que de mim mesma? Fiquei envergonhada com a possibilidade de tê-lo pressionado tanto para mudar enquanto eu continuava obstinadamente a mesma.

Ele estava diante de mim, alto e forte como sempre. De calça jeans, camiseta e um boné de beisebol enfiado na cabeça, muito diferente do multibilionário que o mundo imaginava conhecer, mas ainda tão poderoso que afetava todos por quem passava. Com o canto dos olhos, notei como as pessoas ao redor reparavam nele, sempre parando para uma segunda olhada.

Fosse com os ternos de três peças de sua preferência ou com roupas casuais, o corpo longilíneo e musculoso de Gideon era inconfundível. A maneira como se movia e a autoridade que emanava de seu autocontrole impecável tornavam impossível para ele se misturar à multidão.

Nova York engolia tudo o que surgia em suas ruas, mas Gideon controlava a cidade com rédea curta.

E ele era meu. Mesmo com a aliança em seu dedo, às vezes eu ainda não conseguia acreditar nisso.

Gideon jamais seria um homem como outro qualquer. Era a ferocidade disfarçada de elegância, a perfeição escondida entre falhas. Era o que dava sentido ao meu mundo, e ao mundo em si.

Mesmo assim, tinha me mostrado que cederia até o limite do suportável por mim. Isso me deu determinação para provar que merecia o sofrimento que o obriguei a encarar.

Ao nosso redor, o comércio da Broadway começava a abrir. O trânsito na rua começou a ficar mais pesado, com os carros pretos e os táxis amarelos sacolejando sobre a superfície irregular. Os moradores saíam, levando o cachorro para passear ou se dirigindo ao Central Park para uma corrida matinal, aproveitando o pouco tempo que tinham antes de mais um dia de trabalho começar a todo vapor.

A Mercedes estacionou bem quando nos aproximamos, e pude ver a silhueta vultosa de Raúl ao volante. Angus parou o Bentley logo atrás. Os carros que levariam cada um de nós para a própria casa. Como era possível considerar aquilo um casamento?

Mas nosso casamento era assim, apesar de não ser essa a vontade de nenhum dos dois. Tive que impor um limite quando Gideon contratou meu chefe para tirá-lo da agência em que eu trabalhava.

Entendia o desejo do meu marido de que eu me juntasse a ele nas Indústrias Cross, mas tentar me forçar a isso agindo pelas minhas costas… Isso eu não podia permitir, não com um homem como Gideon. Ou estávamos juntos de verdade — tomando todas as decisões juntos —, ou nosso relacionamento não ia funcionar.

Ergui a cabeça e olhei para seu rosto deslumbrante. Seu remorso era bem claro, assim como seu alívio. E seu amor. Muito amor.

Ele era tão lindo que me deixava sem fôlego. Seus olhos eram azuis como o mar caribenho, seus cabelos eram grossos e pretos, chegando até o pescoço. Os ângulos de seu rosto foram esculpidos à perfeição, algo que me deixava maravilhada e quase incapaz de pensar racionalmente. Fiquei impressionadíssima com sua beleza desde a primeira vez que o vi, e de tempos em tempos ainda me surpreendia em momentos de admiração febril. Gideon me deixava boquiaberta.

Mas o que mais me encantava era quem ele era por dentro, sua força interior, sua energia incessante, sua inteligência afiada, sua determinação implacável e seu coração…

“Obrigada.” Meus dedos percorreram suas sobrancelhas grossas e escuras, que sempre se moviam quando eu tocava sua pele. “Por ter me ligado. Por ter me contado sobre seu sonho. Por vir me encontrar aqui.”

“Eu iria a qualquer lugar para ver você.” Ditas com fervor e determinação, essas palavras soaram como uma promessa.

Todo mundo tem seus demônios. Os de Gideon estavam escondidos sob seu autocontrole implacável, mas quando dormia eles o atormentavam em pesadelos violentos e assustadores que não queria compartilhar comigo. Tínhamos muito em comum, mas o abuso que havíamos sofrido na infância era um trauma que nos aproximava e nos afastava ao mesmo tempo. Isso me fez querer lutar ainda mais por Gideon e o que tínhamos juntos. Nossos abusadores já haviam tirado coisas demais de nós.

“Eva… A sua vontade é a única coisa neste mundo capaz de me manter distante.”

“Obrigada por isso também”, murmurei com um aperto no coração. Nossa separação recente tinha sido dura para nós dois. “Sei que não é fácil para você me dar tanto espaço, mas precisamos disso. Também sei que exigi muito de você…”

“Demais.”

Minha boca se curvou ao ouvir um sinal de irritação na voz dele. Gideon não estava acostumado a não conseguir o que queria. “Eu sei. E você respeitou isso, porque me ama.” Mas, apesar de Gideon ter odiado ser privado de mim, estávamos juntos agora porque aquilo o tinha mudado positivamente.

“Sinto muito mais que amor por você.” Ele segurou meus pulsos, apertando-me de um jeito autoritário que me fez ceder.

Balancei a cabeça, sem medo de admitir que precisávamos um do outro de um jeito que a maioria das pessoas não consideraria saudável. Mas nosso relacionamento era assim. E era muito importante para mim.

“Vamos no mesmo carro para o consultório do dr. Petersen.” Seu tom ao dizer essas palavras foi de ordem, mas seus olhos inquisitivos em mim faziam com que parecesse uma pergunta.

“Como você é mandão”, brinquei, querendo que nossa despedida se desse em um clima leve, de esperança. Nossa sessão de terapia semanal com o dr. Lyle Petersen era dali a algumas horas, e não poderia vir em um momento melhor. Tínhamos feito bastante progresso. Seria bom receber orientação quanto aos próximos passos.

Ele enlaçou minha cintura com os braços. “Te amo.”

Segurei a bainha de sua camiseta, agarrando-me ao tecido macio. “Também te amo.”

Eva.” Senti seu hálito quente no meu pescoço. Manhattan pulsava ao nosso redor, mas sem provocar nenhuma distração. Quando estávamos juntos, nada mais importava.

Deixei um ruído grave de desejo escapar, e meu corpo, que tanto queria Gideon pressionado contra mim, estremeceu. Inspirei profundamente para sentir seu cheiro, acariciando os músculos firmes de suas costas. A sensação que me invadiu foi de perder a cabeça. Eu estava viciada nele — de corpo, alma e coração — e havia passado vários dias sem uma dose, o que me deixou abalada, desequilibrada, incapaz de funcionar plenamente.

Gideon me envolveu com seu corpo muito maior e mais forte que o meu. Eu me senti segura em seu abraço, querida e protegida. Nada seria capaz de me magoar ou me atingir enquanto estivesse nos braços dele. Queria que Gideon sentisse essa mesma sensação de segurança comigo. Precisava que soubesse que podia baixar a guarda e respirar um pouco, que eu nos protegeria.

Eu precisava ser mais forte. Mais esperta. Mais intimidadora. Tínhamos inimigos, e Gideon estava lidando com eles sozinho. Era de sua natureza ser protetor, e esse era um dos traços de sua personalidade que eu mais admirava. Mas eu precisava mostrar a todos que eu era uma adversária tão temível quanto meu marido.

Acima de tudo, precisava mostrar isso a Gideon.

Senti seu calor, ainda agarrada nele. Seu amor. “Vejo você às cinco, garotão.”

“Nem um minuto a mais”, ele ordenou com um tom bem sério.

Dei uma risadinha, encantada com seu lado durão. “Senão…?”

Ele se inclinou para trás e me lançou um olhar sério antes de dizer: “Vou buscar você”.

Eu devia ter entrado na ponta dos pés na cobertura do meu padrasto, prendendo a respiração, já que pela hora — pouco depois das seis da manhã — a possibilidade de ser pega era grande. Mas entrei dando passos determinados, com os pensamentos voltados para as mudanças que precisaria promover.

Havia tempo para tomar um banho — e nada além disso —, mas eu não queria. Fazia tempo demais que Gideon não me tocava. Tempo demais que não sentia suas mãos em mim, seu corpo dentro do meu. Não queria tirar os resquícios de seu toque. Aquilo me daria forças para o que estava por vir.

Um abajur se acendeu sobre uma mesinha. “Eva.”

“Minha nossa!”, eu disse, assustada,

Quando me virei, dei de cara com minha mãe sentada em um dos sofás da sala de estar.

“Você me deu um baita susto!”, acusei, levando a mão ao coração disparado.

Ela ficou em pé, com um robe de cetim que chegava até o chão envolvendo suas pernas tonificadas e ligeiramente bronzeadas. Eu era sua única filha, e nós parecíamos irmãs. Monica Tramell Barker Mitchell Stanton era obcecada pela aparência. A beleza jovial era seu grande trunfo para manter seu histórico de casamentos com homens ricos.

“Antes que você comece”, aviso, “sim, precisamos falar sobre o casamento. Mas preciso me arrumar e pegar minhas coisas para poder voltar para casa hoje…”

“Você está tendo um caso?”

A pergunta seca e direta me assustou mais que ser surpreendida no meio da sala. “Quê? Não!”

Ela soltou o ar com força, e a tensão abandonou visivelmente seus ombros. “Graças a Deus. Então o que está acontecendo? O desentendimento com Gideon foi sério mesmo?”

Bem sério. Por um tempo, temi que as decisões dele acabassem com nosso relacionamento. “Vamos nos acertar, mãe. Foi só uma briguinha à toa.”

“Uma briguinha à toa que fez com que você o evitasse durante dias? Não é assim que se resolve as coisas, Eva.”

“É uma longa história…”

Ela cruzou os braços. “Não estou com pressa.”

“Bom, eu estou. Preciso me arrumar para o trabalho.”

A mágoa ficou estampada no rosto dela, e meu remorso foi imediato.

Houve um tempo em que eu queria ser como minha mãe quando crescesse. Passava horas experimentando suas roupas, cambaleando sobre seus saltos, melecando meu rosto com seus cremes e cosméticos caríssimos. Tentava imitar sua voz rouca e sussurrada e seus gestos sensuais, com a certeza de que ela era a mulher mais maravilhosa e perfeita do mundo. A maneira como os homens reagiam à presença dela, como a olhavam e a agradavam… Bom, eu queria ter essa mesma aura mágica.

No fim, eu me tornei uma cópia dela sem tirar nem pôr, a não ser pelos cabelos e pela cor dos olhos. Mas só na aparência. Não podíamos ser mais diferentes e, infelizmente, isso era motivo de orgulho para mim. Parei inclusive de seguir seus conselhos, a não ser para assuntos de moda e decoração.

Aquilo precisava mudar. E com urgência.

Tentei diversas táticas no meu relacionamento com Gideon, mas não havia pedido a ajuda da única pessoa próxima de mim que sabia como era ser casada com homens importantes e poderosos.

“Preciso de um conselho, mãe.”

Minhas palavras pairaram no ar por um instante, então vi a reação que causaram. Os olhos dela se arregalaram de surpresa. Um instante depois, minha mãe desabou no sofá, como se seus joelhos tivessem fraquejado. Senti o quanto a havia afastado de mim.

Quando me sentei em frente a ela, estava com o coração apertado. Eu tinha aprendido a tomar cuidado com o que compartilhava com minha mãe, fazendo de tudo para evitar menções a informações que poderiam dar início a discussões enlouquecedoras.

Nem sempre fora assim. Nathan, o filho de um dos meus padrastos, arrancou de mim uma relação tranquila com minha mãe, além da minha inocência. Depois de ficar sabendo do abuso, ela mudou, tornando-se superprotetora a ponto de me seguir e me sufocar. Monica Tramell sempre foi uma mulher absolutamente confiante, menos em relação a mim. Comigo ela era ansiosa e invasiva, e às vezes beirava a histeria. Ao longo dos anos, fui forçada a evitar a verdade em várias ocasiões, guardando segredos de todos que amava só para manter as coisas tranquilas.

“Não sei de que tipo de esposa Gideon precisa”, confessei.

Ela jogou os ombros para trás, assumindo uma postura indignada. “Ele está tendo um caso?”

“Não!” Soltei uma risada sem graça. “Ninguém está tendo um caso. Não faríamos isso um com o outro. Não conseguiríamos. Não precisa se preocupar com isso.”

O recente caso da minha mãe com o meu pai talvez fosse o verdadeiro motivo dessa preocupação. Será que ela estava com a consciência pesada? Ou repensando sua relação com meu padrasto? Eu não sabia como me sentir a respeito, porque amava demais meu pai, mas também achava que Stanton era o marido perfeito para minha mãe.

“Eva…”

“Gideon e eu nos casamos em segredo algumas semanas atrás.” Como era bom poder contar isso.

Ela piscou uma vez. Duas vezes. “Quê?”

“Ainda não contei ao papai”, continuei. “Mas vou ligar para ele hoje.”

Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Por quê? Eva… Como foi que nos afastamos tanto assim?”

“Não chora.” Levantei e fui me sentar ao lado dela . Segurei suas mãos, e ela me deu um abraço forte.

Ao sentir seu cheiro tão familiar, fui invadida pela tranquilidade possível apenas nos braços de uma mãe. Por alguns momentos, pelo menos. “Não foi nada planejado, mãe. Viajamos num fim de semana e Gideon me pediu em casamento. Eu aceitei, então ele tomou as providências… Foi uma coisa espontânea. No calor do momento.”

Ela se inclinou para trás, revelando o rosto molhado de lágrimas e um fogo no olhar.

“Ele se casou com você sem um acordo pré-nupcial?”

Dei risada. Era inevitável. Claro que minha mãe ia se preocupar com os detalhes financeiros. O dinheiro era o que movia sua vida. “Eu assinei um acordo.”

“Eva Lauren! Você pelo menos leu o documento? Ou foi uma coisa espontânea também?”

“Li tudinho.”

“Mas você não é advogada! Meu Deus, Eva… Achei que fosse mais esperta que isso!”

“Até uma criança de seis anos entenderia aqueles termos”, rebati, irritada com o verdadeiro problema no meu casamento: gente demais interferindo no meu relacionamento com Gideon, gerando uma distração constante que nos impedia de lidar com as coisas que de fato precisavam ser resolvidas. “Não precisa se preocupar com o acordo pré-nupcial.”

“Você deveria ter mandado o documento para Richard ler. Não sei por que não fez isso. Que irresponsabilidade! Eu não…”

“Eu li, Monica.”

Eu e minha mãe nos viramos ao ouvir a voz de Stanton. Ele entrou na sala pronto para o trabalho, com um terno azul-marinho impecável e gravata amarela. Eu imaginava que Gideon seria muito parecido com meu padrasto quando chegasse à idade dele: enxuto, distinto, mais confiante do que nunca como macho alfa.

“Você leu?”, perguntei, surpresa.

“Cross me mandou algumas semanas atrás.” Stanton foi até minha mãe e segurou as mãos dela. “Eu não seria capaz de negociar termos mais favoráveis.”

“Sempre é possível conseguir termos mais favoráveis, Richard!”, minha mãe rebateu.

“Existem recompensas para datas como aniversário de casamento e nascimento de filhos, e nenhuma penalidade para Eva além de terapia de casal. Uma eventual separação causaria uma distribuição mais que equilibrada dos bens. Quase mandei o documento para o advogado de Cross revisar. Imagino que ele consideraria totalmente desaconselhável.”

Minha mãe sossegou por um instante, refletindo a respeito. Em seguida se levantou, furiosa. “Você sabia que eles iam se casar em segredo? E não me disse nada?”

“Claro que não sabia.” Ele a abraçou, falando como se estivesse se dirigindo a uma criança. “Pensei que estivessem planejando o futuro. Você sabe que esse tipo de negociação demora meses. Mas, nesse caso, eu não teria nem pedido tudo isso.”

Fiquei em pé. Tinha que me apressar para não chegar atrasada ao trabalho. Naquele dia, principalmente, eu precisava chegar na hora.

“Aonde você vai?” Minha mãe se desvencilhou de Stanton. “A conversa ainda não terminou. Você não pode despejar uma bomba como essa e ir embora.”

Virei para encará-la, mas fui andando para trás. “Preciso mesmo me trocar. Que tal a gente se encontrar na hora do almoço para conversar melhor?”

“Você não pode estar…”

“Corinne Giroux”, eu a interrompi.

Minha mãe arregalou os olhos, e logo depois franziu a testa. Um nome. Não precisei dizer mais nada.

A ex de Gideon era um problema que não exigia maiores explicações.

Era raro alguém ir a Manhattan e não se sentir imediatamente em um lugar familiar. Os cenários da Big Apple haviam sido imortalizados em inúmeros filmes e programas de tv, espalhando pelo mundo todo o amor que os habitantes de Nova York sentiam pela cidade.

Eu não era exceção.

Adorava a elegância art déco do Chrysler Building. Conseguia me localizar em qualquer parte da ilha só avistando o Empire State. Fiquei impressionada com a altura da Freedom Tower, que dominava a paisagem no centro da cidade. Mas o Edifício Crossfire era de outra categoria. Eu já achava isso antes mesmo de me apaixonar pelo homem cuja visão levou à construção do prédio.

Quando Raúl estacionou a Mercedes, observei com admiração o vidro safira que envolvia a forma de obelisco do edifício. Ergui a cabeça e deixei que meu olhar se dirigisse até o alto, para o espaço iluminado que abrigava a sede das Indústrias Cross. Os pedestres passavam sem parar ao meu redor, a calçada lotada de homens e mulheres de negócios com pastas de couro em uma das mãos e um copo fumegante de café na outra.

Senti a presença de Gideon antes mesmo de vê-lo, com meu corpo todo vibrando assim que ele saiu do Bentley, estacionado logo atrás da Mercedes. O ar ficou carregado de eletricidade, como se uma tempestade estivesse a caminho.

Eu me virei para ele com um sorriso no rosto. Não era coincidência chegarmos no mesmo instante. Soube disso assim que vi seus olhos.

Estava usando terno preto, camisa branca e gravata prata. Mechas escuras e sensuais de seus cabelos roçavam a mandíbula e o colarinho. Gideon ainda me encarava com a mesma ferocidade sensual que me atraíra a princípio, mas agora havia também ternura em seus olhos azuis reluzentes e uma receptividade que para mim significava mais do que tudo.

Dei um passo à frente quando ele se aproximou. “Bom dia, Moreno Perigoso.”

Ele abriu um sorriso cheio de malícia. A brincadeira deixou seus olhos ainda mais calorosos.

“Bom dia, esposa.”

Estendi a mão e me senti segura quando ele a segurou com força.

“Contei para minha mãe hoje de manhã… sobre o casamento.”

Uma sobrancelha escura se ergueu em surpresa, e o sorriso dele pareceu ainda mais triunfante. “Ótimo.”

Rindo de sua possessividade indisfarçada, dei um esbarrão de leve nele com o ombro. Gideon agiu rápido, puxando-me para perto e me beijando no canto da boca.

Sua alegria era contagiante. Fez minhas entranhas se aquecerem, iluminando espaços que andavam escuros nos últimos dias. “Vou ligar para meu pai assim que tiver um tempinho. Ele precisa saber.”

Gideon ficou sério. “Por que agora, e não antes?”

Ele falou baixinho, para manter nossa privacidade. Pessoas passavam sem parar, quase sem prestar atenção em nós. Mesmo assim, hesitei em responder, sentindo-me exposta demais.

E então… a verdade simplesmente apareceu. Eu estava escondendo coisas demais das pessoas que amava. Pequenas, grandes. Tentando manter tudo como estava, ao mesmo que ansiava por mudanças.

“Eu estava com medo”, contei.

Ele se aproximou um pouco mais, com um olhar intenso no rosto. “E agora não está mais.”

“Não.”

“Hoje à noite você me conta por quê.”

“Tá”, eu disse, concordando com a cabeça.

Gideon segurou minha nuca, em um gesto ao mesmo tempo possessivo e carinhoso. Seu rosto se mantinha impassível, mas seus olhos… aqueles olhos azuis… eram um turbilhão de emoções. “Nós vamos conseguir, meu anjo.”

O amor tomou conta de mim, inebriante como um bom vinho. “Pode apostar.”

Foi estranho passar pela porta da Waters Field & Leaman, contando mentalmente os dias em que ainda poderia me gabar de trabalhar na prestigiada agência de publicidade. Megumi Kaba acenou para mim da recepção, batendo no fone para mostrar que não podia falar. Acenei de volta e fui para minha mesa com passos confiantes. Havia muito a fazer.

Mas eu precisava começar pelo mais importante. Guardei a bolsa na última gaveta, acomodei-me na cadeira e entrei no site da minha floricultura on-line favorita. Sabia exatamente o que queria. Uma dúzia de rosas brancas em um vaso de cristal vermelho.

Branco de pureza, amizade, amor eterno. E também da paz. Demarquei minhas linhas de batalha ao forçar uma separação com Gideon e, no fim, saí vencedora. Porém não queria ficar em guerra com meu marido.

Nem tentei elaborar um bilhete engraçadinho para acompanhar as flores, como havia feito no passado. Escrevi simplesmente o que sentia em meu coração.

Você é um milagre, sr. Cross.

Eu te admiro e te amo demais.

Sra. Cross

O site abriu a tela para finalizar o pedido. Cliquei no botão de confirmar e pensei por um momento no que Gideon acharia do presente. Um dia, queria vê-lo receber minhas flores. Ele sorria quando Scott, seu assistente, entrava na sala com elas? Interrompia uma conversa para ler o bilhete? Ou esperava por um raro momento de folga para ter mais privacidade?

Abri um sorriso ao considerar as possibilidades. Eu adorava presentear Gideon.

E em breve teria mais tempo para escolher os mimos.

“Você está pedindo demissão?”

O olhar incrédulo de Mark Garrity se ergueu da carta de demissão para mim.

Senti um nó no estômago ao ver a expressão do meu chefe. “Estou. Desculpa por ser assim tão repentino.”

“Amanhã é seu último dia?” Ele se recostou na cadeira. Seus olhos eram alguns tons mais claros que sua pele chocolate e expressavam surpresa e decepção. “Por quê, Eva?”

Soltando um suspiro, eu me inclinei para a frente e apoiei os cotovelos nos joelhos. Mais uma vez, decidi contar a verdade. “Sei que não é muito profissional da minha parte, mas… tive que redefinir minhas prioridades e… não posso dedicar toda a minha atenção ao trabalho no momento, Mark. Desculpa.”

“Eu…” Ele soltou o ar com força e passou as mãos pelos cabelos crespos e pretos. “Que droga… O que posso dizer?”

“Que você me perdoa e não vai ficar bravo comigo?” Soltei uma risadinha sem graça. “Sei que é pedir demais.”

Ele abriu um sorriso amarelo. “Você sabe que não quero perder você, Eva. Não sei se deixei claro como você é importante para mim. Você me faz trabalhar melhor.”

“Obrigada, Mark. Mesmo.” Era mais difícil do que eu imaginava, apesar de ser a melhor e a única decisão possível naquele momento.

Meus olhos se voltaram para a vista que estava atrás do meu chefe. Como gerente de contas júnior, ele tinha um escritório pequeno, de frente para um prédio do outro lado da rua, mas era um horizonte tão nova-iorquino quanto o das janelas do espaçoso escritório de Gideon Cross no último andar.

Em vários sentidos, aquela divisão de andares espelhava a maneira como eu tentava definir minha relação com Gideon. Eu sabia quem ele era. Sabia o que ele era: um homem que pertencia a uma categoria exclusiva. Adorava isso, e não queria mudar nada; só desejava poder chegar ao nível dele por mérito próprio. O que não imaginei foi que, ao me recusar a aceitar que o casamento tinha mudado tudo, eu o estava rebaixando ao meu nível.

Eu nunca seria reconhecida por chegar até o topo por merecimento. Para algumas pessoas, seria sempre aquela que o fez através do casamento. E precisava a aprender a conviver com isso.

“Para onde você vai?”, perguntou Mark.

“Sinceramente… ainda não sei. Só sei que não posso continuar aqui.”

Meu casamento não aguentaria muita pressão mais antes de desmoronar, e eu havia permitido que se aproximasse perigosamente da beira do abismo ao querer distância. Ao me colocar em primeiro lugar.

Gideon Cross era um oceano vasto e profundo, e por um momento eu temi me afogar nele. Mas não podia mais viver com medo. Não depois de perceber que meu maior temor era perdê-lo.

Tentando me manter neutra, eu tinha afastado Gideon. E, irritada por isso, não percebi que, se quisesse ter algum controle, era preciso assumir as rédeas da situação.

“Por causa da conta da LanCorp?”, questionou Mark.

“Em parte.” Alisei minha saia de risca de giz, afastando meus pensamentos do ressentimento de Gideon pelo fato de ter contratado Mark. A gota d’água havia sido a LanCorp procurar a Waters Field & Leaman com um pedido específico para que Mark e, portanto, eu cuidássemos da conta, uma manobra que Gideon encarou com desconfiança. O esquema de pirâmide de Geoffrey Cross tinha aniquilado a fortuna da família Landon, e tanto Ryan Landon como Gideon precisaram recomeçar a partir do prejuízo dos pais. Landon, porém, ainda tinha sede de vingança. “Mas principalmente por motivos pessoais.”

Depois de endireitar a postura, Mark apoiou os cotovelos na mesa e se inclinou na minha direção. “Sei que não é da minha conta e não quero me intrometer, mas você sabe que Steven, Shawna e eu estamos aqui para o que der e vier. Gostamos de você.”

Sua sinceridade fez meus olhos se encherem de lágrimas. Steven Ellison, o noivo de Mark, e sua irmã Shawna se tornaram amigos queridíssimos em Nova York, uma parte importante da rede de relações que construí depois de me mudar para cidade. Independentemente do que acontecesse, não queria perder contato com aquelas pessoas que tinha aprendido a amar.

“Eu sei.” Abri um sorriso triste. “Qualquer coisa eu ligo para vocês, prometo. Mas vai ser melhor assim. Para todos nós.”

Mark relaxou e retribuiu o sorriso. “Steven vai pirar. Acho melhor você contar para ele.”

Ao pensar no empreiteiro grandalhão e sociável, a tristeza se foi. Steven ficaria uma fera comigo por deixar seu parceiro na mão, mas no fim entenderia. “Ah, qual é?”, brinquei. “Você não faria isso comigo… Já está sendo difícil o bastante.”

“Eu não me importaria de deixar tudo ainda mais difícil.”

Dei risada. Sentiria falta de Mark e do meu trabalho. Demais.

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